Uncategorized

O último reduto

Isabel Castro

Nesta rua feita por um calceteiro preguiçoso, os paralelos desalinhados combinam com a arquitectura da coisa: casas pseudo-modernas de um lado, de fachadas de fugir mas com vista para a água, casas de latão do outro, de cores esborratadas que o tempo consumiu. E com vista para a água.

Passo por ali num exercício de equilíbrio, chateiam-me os carros mortiços que ocupam a beira da estrada, e penso em tufões, apesar de o céu estar de um azul tão azul que só pode ter sido importado, que aqui o céu não se confecciona assim. Dos tufões penso no barulho que fazem e do barulho que deverão fazer a quem vive ali dentro, naquelas paredes de latão às cores de onde sai, por enquanto, o cheiro do almoço.

Bastam dois passos para que o olfacto aponte a existência de tinta fresca, que não vejo em lado algum. Talvez esteja lá dentro, dentro da casa velha. Outros dois passos e são óleos velhos que empestam o ar. Muda a cor do latão, muda o cheiro da rua. Mas o calceteiro não ganhou requinte nem os arquitectos dos prédios em frente ganharam juízo. Não respeitaram o céu, hoje de um azul-importado, quase sempre de cor local.

Esta rua dá para um largo e é nele que pouso. Neste largo há vistas largas e um silêncio quase ensurdecedor. O mar não tem ondas e à ponte cais já não chega gente atarefada com a perspectiva de um dia de trabalho do lado de cá. Há um homem nesta rua que espreita da loja onde vive, por entre peixe seco esteticamente alinhado à espera do turista, mas também ele é mudo. Olha para a câmara, imagina vendas, sorri, vê-me a desandar para a outra banda, perde o sorriso, perdeu o negócio. Ainda não é desta que entro.

Levanto a cabeça e, entre o céu e umas grades ferrugentas com caracteres inscritos que não descodifico, mostra-se uma marca de um tempo que resistiu à fúria branqueadora do passado. A ponte cais amarelada – seis pilares com um telhado em cima – tem uma placa tímida do seu antigo proprietário, sem o acento no sítio certo. Não levou com o lótus nem com o verde-local, ninguém se lembrou dela e eu gosto disso – as gruas do outro lado, do lado do novo proprietário, não quebram o silêncio mas é só para já e hoje, que amanhã o vento muda e com ele vem o som que perturba a paz dos vivos.

Passo pelas grades com sinais que não descodifico, por entre os espaços abertos que deixaram, e caminho até ao cais. Não quero ver as chaminés em frente, nem as gruas, e olho para trás. Então sossego neste verde que emoldura a fiada de casas de latão às cores, desejo que ali fiquem para sempre, que as ferrugem e os tufões não dêem por elas.

Desta ponta de Coloane ainda ninguém se lembrou e eu gosto disso – as árvores continuam de pé e a escala é a dos homens que vendem peixe seco ao lado de sebes com flores.

 

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s