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Tudo o que brilha

Os sais de prata misturam-se com os píxeis do ecrã e terminam num ensurdecedor ruído de chuva televisiva. Assim é “All that Glitters”, de Rui Calçada Bastos, o trabalho vencedor dos VAFA. Uma reflexão sobre o vídeo e o cinema.

Inês Santinhos Gonçalves

É sobre a passagem do cinema para o vídeo, sobre a “desglamourização ou banalização da utilização do vídeo” que incide o trabalho “All that Glitters”, de Rui Calçada Bastos, vencedor dos prémios VAFA (Video Art For All).

O segundo Festival Internacional de Vídeo Arte de Macau começa hoje, com dez trabalhos em exposição e outros 30 a serem mostrados em três sessões de projecção. O de Calçada Bastos, um português residente em Berlim que morou dez anos em Macau, foi considerado pelo júri – composto por João Vasco Paiva, Alice Kok e José Drummond – como “um trabalho verdadeiramente apelativo, misterioso e contemplativo, tendo sido escolhido por decisão unânime”.

São 2 minutos e 24 segundos de vídeo a preto e branco, com som. “Estou com um género de purpurina na mão que é lançada numa superfície branca e a quantidade é tanta que o ecrã se torna uma superfície que vai do branco ao espelhado, ao pixel da televisão, o ‘white noise’ – aquela imagem [que aparece] quando a televisão não tem sinal e faz chuva”, explica o artista.

Na base do projecto está uma reflexão sobre a diferença entre o cinema, o vídeo e a fotografia. A ideia surgiu do ditado, que depois deu origem ao nome do trabalho: “All that glitters is not gold” (Nem tudo o que luz é ouro). “A expressão fez-me pensar nos sais de prata da fotografia”, conta. “É como se tivesse os sais de prata do cinema e da fotografia na mão e ao lançá-los numa superfície se transformassem em vídeo.”

Onde tudo começou

A inscrição de “All that Glitters”, que já foi mostrado em Lisboa, Bruxelas e Beverly Hills – onde esteve na “potentíssima” Galeria Gagosian – na competição VAFA, foi uma forma de Calçada Bastos “voltar a Macau e contribuir para o desenvolvimento da cena artística” do território. O evento recebeu 165 candidaturas de 99 artistas, originários de 38 países. A distinção deixou o artista plástico surpreendido: “Enviei o vídeo nos dois últimos dias da candidatura e não estava mesmo nada à espera”.

Calçada Bastos, que começou a carreira artística em Macau e chegou mesmo a ter cá uma galeria, a Kuarto, diz estar satisfeito com a possibilidade de voltar à Casa Garden. “É engraçado porque fiz lá a minha primeira exposição individual mais a sério, tinha 22 ou 23 anos. É bom voltar àquele espaço”, conta.

Desde os tempos em que por cá viveu, no fim dos anos 1980 e em boa parte da década de 90, muita coisa mudou no território e no cenário cultural. “Há mais gente a fazer coisas. Se posso fazer parte disso, por que não?” Apesar de morar em Berlim há dez anos, diz ter vontade “de manter um pé aqui, nem que seja para contribuir para o desenvolvimento de Macau”.

Voltar ao território de forma permanente não é uma hipótese que por agora coloque, mas pretende “manter uma constante colaboração” e envolvimento com projectos culturais de cá.

No ano passado, Calçada Bastos apresentou uma exposição de 13 fotografias tiradas na zona do COTAI. “New City” foi mostrada cá e, mais tarde, na galeria Martin Mertens, em Munique. “Esse retratar de Macau apareceu quase por acaso, por ter reparado que havia aquela zona nova e ter começado a desenvolver fotografias ali. De repente apercebi-me que tinha um corpo de trabalho”, recorda.

No entanto, apesar dessa experiência e da ligação ao território, o artista não pensa usar Macau como tema de forma recorrente. Isso seria, diz, “um bocadinho limitativo”. “Macau é uma fonte de material mas é preciso saber transferir isso para a nossa forma de trabalhar porque cada pessoa tem uma voz diferente”, explica.

Estabelecido numa das cidades mais vibrantes da Europa, pelo menos em termos culturais, Calçada Bastos recusa fazer paralelos entre Berlim e Macau, pois, como explica, são realidades que “nem se podem comparar”. Ao mencionar o território, as reacções, embora compreensíveis, não são animadoras: “Macau, na Alemanha, não quer dizer rigorosamente nada. Eventualmente algumas pessoas sabem a história, o facto de ter sido uma colónia portuguesa – tenho sempre de explicar que não foi realmente colonizada, que foi oferecida pelos chineses porque os estávamos a defender dos holandeses”.

A relação com Hong Kong é rápida, “mas não é algo que tenham visível no mapa, é Extremo Oriente e já está”. Já a China, “é uma coisa tão grande que se torna abstracta”, mas ainda assim reconhecida como um país de criação artística. “Obviamente que o alemão sabe que existe uma cena chinesa de arte contemporânea, but that’s as far as they go.”

O Festival Internacional de Vídeo Arte de Macau começa hoje, na Casa Garden, e dura até ao fim do mês, sempre das 11h às 20h. A entrada é livre.

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