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Até cair

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Após apenas uma temporada, “Skins” foi cancelada nos Estados Unidos. Óbvio. Não sei quem foi que se lembrou que a série adolescente mais gráfica da história poderia passar nos televisores americanos.

Ora vejamos: são miúdos de 15, 16, 17 anos que consomem drogas várias, bebem até cair, têm comportamentos sexuais promíscuos, mentem, enganam, traem, faltam às aulas e frequentam locais pouco recomendáveis.

“Skins” é isto tudo e muito mais. Muito, muito mais. Só do Reino Unido poderia nascer produção tão despudorada – afinal é a terra de “Shameless” e “The Scheme”. É ténue a linha entre o exagero gratuito e a interessante análise de uma geração de adolescentes deixados à solta pelos pais. Dizer que a série foi polémica é eufemismo, mas há algo naquelas personagens que cria uma empatia, um sentimento de reconhecimento que se torna magnético. Vá lá, pelo menos para alguns.

As seis temporadas são passadas na cidade de Bristol, sul de Inglaterra. Ah, e como é refrescante que não seja Beverly Hills. Como é bom ver as casinhas típicas de classe média, o céu cinzento, os bares sem pinta e a degradação humana sem toques cool.

Os miúdos de “Skins” não são meninos da mamã, mas também não são de nenhum bairro problemático, não vêm do mundo do crime, nem nada que se pareça. Estudam numa escola pública normal, igual às que existem em todas as cidades do mundo. Com a excepção de que Bristol é daqueles sítios onde os pais bebem demais e os filhos não têm vergonha de aparecer a cambalear em casa.

Estão lá todos os ingredientes necessários a uma série sobre adolescência: amor, sexo, amigos, saídas à noite. E ao longo das temporadas são várias as temáticas sensíveis, desde famílias disfuncionais, homossexualidade, anorexia e outras doenças do foro psicológico, abuso de substâncias e até a morte.

“Skins” é uma série tóxica e, no entanto, viciante. Aqueles miúdos somos nós, as nossas crises de adolescência (as nossas crises de idade adulta?), as nossas fragilidades, medos, irritações, angústias, curiosidades. A diferença é que a vida deles é muito mais emocionante do que a nossa foi. É tão emocionante que nos espanta como não há mais deles a adoecer, engravidar, ter overdoses ou mesmo morrer.

A série está organizada de forma a que, quando as personagens chegam ao fim do último ano de liceu e saem da cidade para iniciar a universidade, entram outras, que normalmente são os irmãos mais novos. Quando isto acontece há uma renovação quase total do elenco e inicia-se uma narrativa nova. Com isto em mente deixo um conselho: não vale a pena ver além das duas primeiras temporadas. Claro que, depois do estado inebriante em que deixam o espectador, não há quem resista a aventurar-se na terceira. É como dizer “não olhes para baixo”. Mas a verdade é esta, as novas personagens mais não são que uma repetição mal amanhada das primeiras. Ainda assim, depois de se ter começado, leva-se a coisa até ao fim, por mais duas temporadas. Quando a quinta começa, introduzindo novas personagens, já ninguém incorre no mesmo erro.

Voltando ao início. Os verdadeiros miúdos de “Skins” (sim, porque os verdadeiros são só esses que abrem o genérico) não são de fácil empatia, mas ganha-se por eles verdadeiro carinho. Tony, o líder do grupo (mais tarde será a sua irmã Effy a assumir o lugar) é um narcisista insuportável que manipula os amigos e namorada para conseguir tudo o que quer. Vão odiá-lo, mas não vai durar para sempre. Cassie é a personificação do excêntrico, fica ali a roçar o desvio mental, mas de uma forma fascinante. Sid é amor à primeira vista – pelo menos para quem se enternece com a falta de skills sociais, com gente que se atrapalha, diz sempre o que não deve, veste a roupa do avesso e, no fim, perde sempre a miúda para um gajo de olhos azuis.

Um pormenor interessante da série é Anwar, indiano muçulmano, que tal como os outros, sonha com raparigas e bebe até cair aos sábados à noite. Com a bênção de Alá.

Os miúdos de “Skins” não são bem fixes. São o melhor e pior de um país. São um exagero. E o que vale é que não os vamos ver crescer.

 

Skins

Bryan Elsley e Jamie Brittain, 2007

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