Uncategorized

E eis que voltámos a ser adolescentes

Há uns tempos fiz um amigo. Chamava-se Oliver Tate, tinha 15 anos, mas não era real. Que pena, pensei eu depois de terminar “Submarine”. Um filme que faz jus à forma como foi descrito por um crítico do Daily Telegraph: refrescante, original e urgente. Pelo menos para quem gosta de comédias britânicas com a sua pitada de drama, já que o primeiro filme de Richard Ayoade funciona como antídoto para todos os males que se foram vendo por aí. E nem foi preciso inventar muito porque, no fundo, o escritor, actor e realizador inglês só teve de tratar a adolescência – um tema tantas vezes banalizado na história do cinema – como aquilo que ela é. Ou seja, um mundo de dúvidas e fantasias, envolto em pensamentos mais ou menos profundos.

Neste caso, é na vida do tal Oliver Tate (Craig Roberts) que somos convidados a entrar. O rapaz, como tantos outros, tem alguma dificuldade em relacionar-se com os colegas de escola e, entre os seus devaneios, imagina que morre, sendo isso razão de sobra para que todos à sua volta chorem por si.

Outra das fixações do miúdo galês é bem mais óbvia e tem três palavras: perder a virgindade. Para cumprir esse ritual de suposta passagem à idade adulta, escolhe a popular Jordana (Yasmin Paige) que, além de uma franja, tem um pequeno problema de pele e a tendência para olhares perversos.

Contra todas as expectativas, os dois jovens acabam por iniciar uma relação que vai sendo marcada pela inocência. Mas nem tudo é fácil, até porque, não nos esqueçamos, Oliver Tate está metido ao barulho. E o resultado disso são os momentos em que procura ser o melhor namorado do mundo, ao mesmo tempo que não desiste da (in)felicidade dos pais (Sally Hawkins e Noah Taylor), que formam um casal mais do que disfuncional.

É a partir de tudo isto que Ayoade brinda o público com um conjunto de diálogos hilariantes, algumas vezes absurdos, mas sempre geniais, que ganham força pela excelente representação dos actores. No caso dos dois jovens, é gritante porque o trabalho final revela-se tão natural que parece real, ainda que todos os cenários do filme nos remetam para outros tempos, provavelmente os anos 80 do século XX.

Escolha ao acaso? Não, pois “Submarine” foi adaptado do romance de Joe Dunthorne, nascido em 1982. Talvez por isso, o filme transmite uma nostalgia que, em alguns momentos, nos leva também a pensar no lugar onde crescemos ou naquela saudade de ser miúdo, mesmo com uma ou outra borbulha mais chata a dar-nos os bons dias ao espelho.

Com tamanha simplicidade, que rendeu aplausos no Festival de Berlim, a longa metragem de Richard Ayoade é igualmente interessante em termos técnicos. É que, além do realismo poderoso que trespassa, opta diversas vezes por congelamentos da imagem e jump cuts, e está também dividido em prólogo, três actos e epílogo. Tudo isto sem abdicar de um olhar pitoresco capaz de captar a simples mas bela vida de Oliver que aparece, nos momentos altos, embrulhada pela excelente banda sonora da autoria de Alex Turner, o vocalista dos Arctic Monkeys.

Veredicto final: “Submarine” é um daqueles filmes que só poderia ser made in UK porque tem a capacidade de aliar um humor inteligente à sensibilidade necessária com que temos de olhar para a adolescência e para tudo o que isso significa.

Submarine | Richard Ayoade, 2010

Pedro Galinha

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s