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Larga a sopa, João

Antes de mais, uma adenda: em geral, não sou fã de álbuns de música infantil lançados por artistas não dedicados à especialidade. Parece-me sempre coisa de moda, um experimentalismo que pode acabar giro mas fica sempre aquém dos outros CD.

No caso de “B Fachada é pra meninos”, mantém-se a ideia de que não serão estas as canções que vamos coleccionar, principalmente quando o autor se tem vindo a destacar pelo estilo interventivo – tendo sido até comparado a  José Mário Branco, após o lançamento do mais recente álbum “Deus, Pátria e Família”.

“B Fachada é pra meninos” é um disco para crianças, mas que apela muito pouco ao típico universo infantil. E aí é que está a graça. Em entrevista, o músico disse ter-se apercebido que desde “Os Amigos do Gaspar”, de Sérgio Godinho (com quem já tocou diversas vezes), nenhum músico português tinha feito um disco interessante para os mais novos. E isso foi em 1989. Achou que já era tempo de alguém se pôr ao caminho.

Pois então aqui está, com dez canções, um álbum irónico composto para os filhos dos outros. Só assim talvez se explique o apelo à desobediência. “Tó Zé tu tem cuidado/ não sejas pau-mandado/ antes louco e malcriado que pensar só de emprestado/ toda a vida te vão dar o mundo já bem mastigado/ tu começa a praticar para não ficares moralizado”.

E se restavam dúvidas acerca do intuito das canções, repare-se nesta deliciosa brincadeira: “Larga a sopa João/ não comas mais/ não dês ouvidos às mentiras dos teus pais.” Tivesse a Joana ouvido B Fachada e ter-se-ia poupado a muitas colheres de papa.

O decoro e o bom comportamento são postos em causa em frases como “gente moralista nunca ajuda só despista” (“Tó-Zé”), “Porque é que é certo ser cara-de-pau, mas está mal ser filho-da-mãe?” (“Questões de Moral”) ou “Assustaram-me com um velho/ eu tento distinguir o bem do mal/ mas se a mãe é que decide sobre o meu comportamento/ que se lixe o Pai Natal” (“Dia de Natal”).

“O Primeiro Dia” conta com a voz feminina de Francisca Cortesão, com quem B Fachada partilhou campos de férias. A faixa apela ao imaginário desses dias sem aulas, junto à praia – “Fazer de conta que vivemos no Verão” – e ao doloroso regresso à escola – “Aulas novinhas em folha mas frutos velhos para dar”.

Apesar de esta ser uma temática nova para o músico, não deixa de ser reconhecível a sua impressão digital. Na voz, nas melodias, no ritmo, na escolha das palavras. A grande diferença está nos instrumentos: os xilofones, os pianinhos e as baterias de criança fazem essa ligação à infância que por vezes se perde nas letras, que podem fazer mais sentido para os adultos.

Ao contrário do seu mais recente álbum que tem dado que falar, o tal “Deus, Pátria e Família”, “B Fachada é pra meninos” é um disco que tende pouco para o conceptualismo e a música murmurada. É animado, como se quer para a criançada. Mas, como para toda a regra há excepção, “O Futuro”, a última faixa do registo, imprime um tom mais sério e reflexivo. “Vejo em toda a gente grande/ o que o tempo tem pra mim/ as pessoas que vou ser/ desde agora até ao fim/ Serei sozinho ou popular/ serei assim ou mais magrito/ serei pobre, avarento/ tolerante ou erudito?” Uma boa forma de se despedir. De nós e da infância.

B Fachada é pra meninos | B Fachada, 2011

Inês Santinhos Gonçalves

 

 

 

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