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Os contos que ele nos contou

Celina Veiga de Oliveira assina este mês um artigo na Revista da Administração sobre os contos na obra de Senna Fernandes. A historiadora releu textos como “Yasmine” e “Candy” para destacar o valor da literatura de “inspiração macaense”.

Isabel Castro

São “um precioso legado de literatura lusófona”. Celina Veiga de Oliveira, historiadora e editora que viveu em Macau, conheceu bem Henrique de Senna Fernandes e não hesita na análise: os dois livros de contos que o escritor macaense publicou constituem um legado “através do qual Macau pode ser sempre objecto de recriações, de revisitações e de certezas quanto ao valor que a literatura de inspiração macaense oferece como fonte de (re)conhecimento e de (re)encontros”.

No mais recente número da Revista da Administração, a editora da Tágide revisitou os textos que compõem “Nam Van – Contos de Macau” (1977) e “Mong Há” (1988), os volumes de contos de Henrique de Senna Fernandes, para estudar de que modo o autor se dedicou ao género. As “estórias” do macaense, afirma, “na sua grande maioria, podem aproximar-se, pela extensão e vivacidade de enredo, de uma outra forma narrativa: as novelas”.

Em textos de ambas as obras, Veiga de Oliveira encontrou “um conjunto de descrições laterais de grande valor histórico, porque fixam aspectos da cidade que ajudam a compor o ambiente social e político dos fins do século XIX, dos inícios do século XX, da guerra do Pacífico – o leit-motiv de quase todos os textos – e dos anos imediatamente subsequentes”.

Senna Fernandes fixou o lado humano da guerra que não entrou em Macau, mas que a terra experimentou através da fome e dos refugiados que aqui chegaram. A guerra trouxe um isolamento que cercou a cidade e foi ela que lhe mudou a vida – a partida do escritor para Portugal seria adiada pelo conflito, período marcante no crescimento e tema constante na obra. “Candy” faz parte dos contos sobre essa época – resume Celina Veiga de Oliveira que se trata da “história de uma refugiada que se ‘acoitara’ em Macau vinda de Hong Kong ocupada, esfomeada e pálida, com um pobre casaco que ‘mal a agasalhava’; no fundo, a história de tantas(os) refugiadas(os) para quem cada dia foi, nesses difíceis anos, uma luta pela sobrevivência”.

Em “Os bons fantasmas”, o autor “conta o drama insólito ocorrido numa casa assombrada”, arrendada pela família Senna Fernandes em 1942. São contos como este que levam a editora a salientar que na obra do escritor macaense cabem “registos memorialistas” que nos permitem ficar a conhecer não só a família em que nasceu, como a vida que teve “desde os bancos da escola”.

Outros textos, prossegue Celina Veiga de Oliveira, “são interessantes descrições de espaços e de ambientes da cidade que o tempo se encarregou de alterar ou apagar”. A autora do artigo dá como exemplos os casos da Rua das Mariazinhas, do Grémio Militar e do Hotel Riviera, mas há outros, muitos: a Rua da Felicidade em que Maurício (“Chá com essência de cereja”) se aventurou, para viver dias de encanto com uma jovem chinesa; em “A-Chan, a tancareira”, Henrique de Senna Fernandes descreve-nos uma cidade paralela na água que já deixou de existir.

“Raras são as narrativas que ultrapassam temporalmente a Guerra do Pacífico.” A historiadora não arrisca uma explicação, talvez por ter sido frequentes vezes dada pelo próprio escritor: Senna Fernandes desencantou-se com o desaparecimento da sua Praia Grande, com os caminhos que Macau inventou e que deixaram de corresponder ao seu mapa criativo. Ainda assim, escreveu sobre tempos mais recentes: “Ódio velho não dorme” é uma história de amor e vingança “cuja acção se desenvolve entre os tempos de estudante até aos últimos anos do século XX”, contextualiza Veiga de Oliveira.

Em textos que se aproximam da novela, pelo seu registo, a editora destaca “Yasmine” como “porventura o conto que melhor corresponde ao cânone de narrativa com final surpreendente”. O escrito que encerra “Mong Há” é sobre o amor – tema unificador da obra de Senna Fernandes, arriscamos –, sendo que este amor, como tantos outros a que deu existência, é impossível. Bradley, a personagem principal, “ousou enfrentar a censura preconceituosa da sofisticada sociedade de Hong Kong, e organizou uma recepção para apresentar” Yasmine, que o escritor só viu em forma de quadro. A musa indiana de Bradley “devia ser muito linda, de olhos negros, profundos, de indizível melancolia, mas extraordinariamente belos”, descreveu-nos o escritor. Bradley fugiu com ela para Macau, terra dada a quase todas as tolerâncias, para salvar Yasmine de um indiano que a subjugava. Mas desapareceu. Senna Fernandes diz-nos porquê: “A formosíssima Yasmine, de olhos tristes e expressão melancólica, nascera desventuradamente homem”.

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