Uncategorized

Perdas e ganhos

“Desde que cobri o braço esquerdo com tatuagens que sei aquilo que sentem as mulheres com decotes.” (p. 333) Olhares. “No caso dos piercings, é mais inconsciente. Estão a falar comigo e, de repente, começam a ter comichão na sobrancelha, exactamente no lugar do meu piercing.” Olhares e gestos. Lugares-comuns. Sempre as mesmas perguntas, as mesmas etiquetas. Somos todos previsíveis e tão parecidos. O que é não é necessariamente bom mas, há que convir, também dá jeito.

“Debaixo da roupa, estamos todos nus”, declara, com a consciência de que “tudo é definitivo e deixa marcas”. “Eu escrevo livros. Sei que tudo é definitivo e nada é eterno.” (p. 334). Vendo bem as coisas, José Luís Peixoto sabe que as pessoas são todas mais ou menos iguais: debaixo da roupa têm pele, a pele que “é a nossa superfície, a aparência”. “E, já se sabe, a aparência é tão enganadora, a superfície é tão superficial.”

Este “Abraço” são mais de 160 textos em que se pretende passar da superfície. Ir um bocadinho mais fundo, onde também somos todos mais ou menos iguais. Uns mais do que outros, que as razões das nossas aparências nem sempre são as mesmas.

São textos que, em rigor, podem ser lidos ao acaso. Podem, mas não devem. Ainda assim, fazemos o que não devemos e vamos pelo acaso, à procura do sentido. Paramos em “Como imagino a primeira vez que fizermos sexo”, para lermos: “Seja como for, não é bom ter certezas em relação a tudo. São as incertezas que esbatem os contornos, que diluem as cores. Precisamos das incertezas para não sermos geométricos e insuportáveis.” (p. 385). Ninguém quer ser quadrado. Ou rectangular. Ainda ao acaso, encontramos: “Talvez haja essa palavra, ‘sentido’. Se existir, os livros fazem parte dela e tentam descrevê-la.” (p. 596). Andamos todos à procura do sentido. Uns mais conscientes que outros.

O sentido existe, está ali naqueles mais de 160 textos para ler de enfiada, por ordem de disposição. Vamos pelo caminho certo, pela ordem que se sugere. Há um abraço neste “Abraço” e os abraços, propostas de leitura, têm um início e um fim. Constroem-se. Não se fazem ao acaso, nem por sorte.

Este “Abraço” é um desafio às nossas próprias memórias, ao exercício de nos lembrarmos de onde somos. Como crescemos. Todos temos mundos que fomos perdendo, substituídos por outros que vamos ganhando. “O mundo inteiro era a minha vila, a minha rua, a minha casa e a minha família.” (p. 65). “Debaixo da roupa, estamos todos nus”, todos tivemos mundos inteiros.

Mas este “Abraço” não é só passado, é presente e reflexão em perspectiva: “Sei que ao crescer, perdi muito. A partir daqui, ao crescer mais – agora, começará a dizer-se ‘ao envelhecer’ – hei-de perder mais ainda.” (p. 47). E ganhar, arriscamos nós: uma vida de coisas para escrever, para dizer, para partilhar, para prolongar no tempo com este “Abraço” que não acaba no fim, à página 655.

Abraço | José Luís Peixoto, 2011

Isabel Castro

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s