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“Publicar um romance faz com que a minha vida se transforme”

E só deve acontecer quando há realmente uma ideia para acrescentar ao muito que já se escreveu. O mais recente livro de José Luís Peixoto, “Abraço”, junta textos dispersos e oferece-lhes uma narrativa, um fio condutor que é o da sua própria vida. Dez anos de escrita que se pretende útil: entre ficção e realidade, as palavras devem fazer bem as quem as lê, porque chegam para lá do que é visível.

Isabel Castro

– Porquê esta necessidade de fazer um balanço de dez anos de escrita?

José Luís Peixoto – Publiquei o meu primeiro livro em 2000; publiquei também o meu primeiro romance em 2000. Desde então, a escrita tornou-se realmente muito presente na minha vida, tanto que, sob o ponto de vista da minha própria vida, foi uma mudança tremenda. E uma mudança que, apesar de sempre tomar a escrita com muita seriedade, não tinha possibilidade de antever. O que aconteceu nestes dez anos foi um trabalho de escrita muito intenso nas mais diversas áreas, algumas até inesperadas para mim. Além dos livros que publiquei nas áreas do romance, do conto, da poesia, inclusivamente na do teatro, vi-me, por força de contingências e de propostas que me surgiram, a escrever, por exemplo, letras de canções, desde o hip-hop até ao fado, passando por géneros musicais dos mais diversos. Vi-me a escrever peças de teatro a serem representadas um pouco por todo o lado e a desenvolver escrita também nessa área, e à partida não esperava fazê-lo. E vi-me a escrever uma quantidade imensa de textos que têm sido publicados em revistas e jornais, sobretudo portugueses, sob a forma de colunas, de crónicas, mas onde também a ficção acaba por ser um elemento muito importante, dada a minha formação e os meus interesses literários. Este livro, “Abraço”, publicado agora nesta ocasião, é um pouco uma forma de arrumar todo esse património – mas arrumá-lo no sentido de organizá-lo, não no sentido de limpar gavetas.

– Não se trata então de um exercício de arquivo do que é a sua escrita e do que são os seus temas.

J.L.P. – Em certa medida, existe aqui um certo exercício de perceber, dentro desse grande trabalho de escrita, o que é que considero que deve continuar a ser lido, porque os livros acabam por ter essa diferença de ambição em relação às publicações periódicas, na medida em que estas vão sendo substituídas com o passar do tempo. O jornal do dia seguinte substitui o jornal da véspera. Os livros têm uma ambição de permanência e por isso é que estes textos, ao terem uma nova vida, acabam por ter uma vida com uma outra ambição. Colocá-los num livro é fornecer ao leitor uma perspectiva diferente. É dizer que podem ser lidos daqui a dez anos, o que nem sempre aconteceu com todos os textos que escrevi nessas circunstâncias, que muitas vezes eram mais ligados a temas do momento. No entanto, tendo uma grande quantidade de textos disponíveis para fazer essa escolha, acabei por seguir um caminho de maneira a construir uma narrativa e a não ser apenas um arquivo, mas realmente um caminho de leitura, que tivesse uma sequência interessante para quem começasse a ler da primeira até à última página.

– Optou por criar três partes diferentes no livro.

J.L.P. – Essas três partes são pilares que, de certa forma, estão muito ligados a uma sequência que norteia todo o livro e que é a da autobiografia e da memória, uma vez que os textos que formam o núcleo mais central são aqueles que vão contando a minha própria história, por ordem cronológica, desde a minha primeira memória até acontecimentos que tiveram lugar já neste ano de 2011. As três partes que o constituem têm ligações muito íntimas à minha vida: primeiro, a idade dos meus filhos – seis anos e 14 anos – e, a última parte, a idade que tinha quando acabei de organizar este livro, 36 anos. Ao mesmo tempo, isto permitiu-me fazer a divisão em três partes essenciais destes anos, que são a infância, a adolescência e a idade adulta. Têm bastantes especificidades: a minha infância muito ligada ao Alentejo; a minha adolescência muito ligada a alguma rebeldia, à música mais pesada e a uma grande quantidade de peripécias; e a idade adulta ligada à escrita, às viagens, a isto que é ser escritor, que é algo que já se tornou parte da minha identidade, na medida em que já o faço há 11 anos.

– O seu trabalho contém uma grande reflexão sobre o que é a idade. É uma marca dos 30? Os 20, a fase em que tudo é possível, acabaram, e entra-se numa outra lógica em que já não somos miúdos, mas ainda não passámos a barreira psicológica dos 40.

J.L.P. – Sinto que nunca se consegue completamente responder ao porquê de escolher certos temas em vez de outros. Na verdade, com a experiência, tem vindo a parecer-me que há alguns temas para os quais tenho uma certa vocação. Mas se calhar o motivo é talvez uma resposta muito maior e englobaria uma consciência tal de quem eu sou que ainda não tenho. No entanto, essa questão da idade acaba por estar presente de formas diversas em tudo aquilo que tenho escrito e que tenho publicado desde o meu primeiro livro, “Morreste-me” [2000], que fala sobre a morte do pai e que, para mim, foi um livro muitíssimo marcante, acompanhando também essa circunstância em que somos colocados ali numa passagem de idades. No meu caso, foi o momento em que deixei de ser filho e comecei imediatamente a ser pai, o que me fez logo ter uma consciência muito profunda dessa questão das idades. Ao mesmo tempo, livros como “A Criança em Ruínas” [2008] são livros em que essa questão – a da imposição da idade adulta – está muito presente. Depois, em todos eles se encontra, mas de formas diferentes. Há um livro mais recente, que se chama “Cal” [2007], em que todas as personagens têm pelo menos mais de 70 anos, e aí a questão coloca-se de outra forma, mas acaba por ser a mesma: nesse caso, é a questão da velhice, de uma idade também que fará parte desta colecção de idades que vamos acumulando.

– O “Abraço” é um livro de uma grande exposição. Todos estes textos juntos acabam por nos dar uma noção muito maior de quem é o José Luís Peixoto do que os textos soltos. Tem vindo a sentir que essa exposição aumentou?

J.L.P. – Sim. Na verdade, parece-me que os leitores, até pela natureza bastante íntima da própria leitura, muitas vezes acreditam saber alguns segredos de quem escreve. A escrita e a leitura são algo que se desenvolve num domínio muito íntimo, porque aquelas palavras chegam muitas vezes aonde nós, que estamos tão perto das pessoas, não conseguimos chegar. Essas palavras são descarregadas no pensamento, naquele lugar para lá do rosto que todas as pessoas têm. Procuro sempre aprofundar essa experiência, porque escrever é também uma forma de me tentar conhecer. Eu próprio sou bastante importante para mim próprio (risos). E querer saber sobre mim é dos um exercícios que tento sempre levar avante não só com a minha escrita, mas com tudo aquilo que faço. Ao fazê-lo, espero que os outros se possam também encontrar a si próprios. Não fujo dessa intimidade – procuro-a, até porque acredito que existe muito de humano nela.

– Faz parte do grupo de escritores que entende que a componente autobiográfica está sempre presente. Neste livro, até que ponto existe um lado ficcional?

J.L.P. – É claro que não nego o lado autobiográfico. Aliás, um dos aspectos que acaba por estar presente em muitos textos é o meu nome. Quando chega ao nome, então é porque a autobiografia é assumida. No entanto, também sei – e sei muito bem – o quanto a ficção está sempre presente. Há alguns momentos em que essa ficção é aberta, é assumida. Existe um texto, por exemplo, em que uma personagem, que inclusivamente tem o meu nome completo, depois de escrever o seu primeiro romance, decide ir a Zurique desenterrar o cadáver de James Joyce e enterrá-lo em Dublin, onde acredita que faz mais sentido que estejam os restos mortais desse escritor. E faz efectivamente esse percurso. Ora, acho que ninguém acredita que eu tenha feito isso. Na verdade, nunca fui a Zurique. Nem a Dublin (risos). Tenho esses dois álibis. Assim sendo, o que se diz num texto como esse é que tudo é ficção e, mesmo naqueles textos que aparentemente são mais autobiográficos, pode existir um ponto de partida de algo que aconteceu, mas aquilo que aconteceu efectivamente é outra coisa, porque ao descrevê-lo, já se está a escolher uma perspectiva própria – havia muitas outras que se podiam ter escolhido e que não estariam menos erradas ou menos certas do que aquela. Existe sempre um transformar da realidade, porque aquilo que ali está são palavras, é texto, e a realidade acontece em muitas outras matérias, não acontece só através de palavras ou de texto. Logo nessa transformação se altera a própria realidade.

– Podemos dizer então que existe uma relação mútua entre realidade e ficção, no sentido em que quando se ficciona a realidade está lá, mas também quando se escreve sobre a realidade há um lado ficcional?

J.L.P. – Sim, parece-me que essa é uma situação inevitável. Esse paradoxo é algo a que não se pode fugir, faz parte da natureza deste gesto que é a escrita. Mas também me parece, ao mesmo tempo, que não deve haver nenhuma angústia nisso. Existem múltiplas circunstâncias na vida que também assentam no paradoxo. Nós, como seres humanos, temos alguma dificuldade em lidar com os paradoxos mas, se calhar, é uma questão de os aceitarmos, porque são parte da natureza de muitas questões.

– É um escritor que diz ter dificuldade em produzir um livro por ano, que é o ritmo a que o mercado editorial português nos habituou. Como é que acontece o processo da escrita? Diz ‘vou escrever’, ‘tenho de escrever’?

J.L.P. – Aquilo que tenho mais dificuldade, na verdade, é em escrever um romance por ano, porque vou sempre escrevendo. Tenho esses compromissos com diversas publicações e a escrita está sempre muitíssimo presente na minha vida. No entanto, acredito que os livros – por aquilo que representam na história e pela forma também como os aprendi – têm uma aspiração a resistirem ao tempo, a projectarem-se no futuro. É importante que exista uma certa responsabilidade no acto de publicar, na medida em que somos resultado de uma tradição de séculos. Antes de nós foram escritos séculos de livros, nunca vamos ter tempo nem possibilidade de os ler todos. Ter a ousadia de acrescentar alguma coisa a todo esse património requer, também paradoxalmente, uma certa irresponsabilidade – uma vez que nunca teremos realmente a garantia de que estamos a dizer algo de absolutamente novo –, mas também uma certa responsabilidade, porque pelo menos temos de acreditar que estamos a dizer algo de novo, algo que nunca foi dito, algo que acrescenta alguma coisa a quem o lê e ao mundo. Nem sempre consigo acreditar que descobri uma coisa tão grande para dizer ao mundo que mereça o trabalho que um romance também dá e tudo aquilo que acontece por publicar um romance. Para a minha vida, a publicação de um romance é uma mudança importante, é um acrescento, é algo que faz com que a minha vida se transforme. Muitas vezes, aquilo que me custa não é escrever – se não escrevo um romance por ano não é porque não escreva o volume de texto suficiente para constituir um romance, acredito até que escrevo bastante mais do que serão os romances médios. O que não acontece todos os anos, e o que me custa muitas vezes, é acreditar numa ideia ou num conjunto de personagens, ou apaixonar-me por um discurso. Isso é que é mais difícil.

– A propósito da responsabilidade do acto de publicar: hoje publica-se em demasia?

J.L.P. – Em Portugal, os últimos números que ouvi apontavam para cerca de dez livros novos por dia. É um número bastante elevado, mesmo sabendo que esse número comporta todos os géneros de publicações. Sinto que hoje em dia existem muitas palavras e muita informação a circular, não só sob a forma de textos publicados e encadernados, mas na Internet e em múltiplos meios. Lá está, mais uma vez, o paradoxo, porque é bom e é mau. Tem aspectos positivos e negativos, inclusivamente para quem escreve. Sinto que, na verdade, se chega com muita mais facilidade à edição, mas tem-se muita mais dificuldade em se encontrar algum destaque, na medida em que o ruído circundante é muito grande. Ondas de edição como esta fazem com que eventualmente se publique muito, mas também faz com que textos e livros que mereceriam mais atenção não a tenham, em função de passarem desapercebidos dentro de toda aquela maré de textos que são publicados semanal e mensalmente.

– Neste trabalho de selecção e edição que teve de fazer para o “Abraço”, encontrou muitos textos que preferia não ter escrito? Os anos passam, a forma de escrever altera-se, a forma de pensar também. Houve algum que o tivesse feito sentir um bocadinho de vergonha?

J.L.P. – Vergonha nunca senti. Tenho compreensão para comigo próprio porque sei que o ritmo que me é exigido, ou que exijo a mim próprio, é rápido de mais para aquilo que sou capaz de produzir. E também sei que há textos que não são completamente conseguidos, mas que são caminhos para depois chegar a outros que, se calhar, sem aqueles não teriam existido. Ao mesmo tempo, sei que quando há duas ervilhas, escolhe-se sempre uma, mesmo que sejam as duas bastante parecidas. Há textos que para mim foram menos interessantes mas que tiveram a sua importância no momento em que foram publicados e que, apesar de hoje considerar que não é interessante voltar a publicá-los, no momento em que os publiquei tentei que fossem o melhor que conseguia fazer naquele preciso momento.

– Durante estes anos de escrita, publicou prosa, teatro, romance, poesia. Tem vindo a intercalar estes diferentes géneros literários. Encontrou-se mais nalgum deles? Ou ocupam de igual forma e com igual peso, se é que isso é possível, o seu universo criativo?

J.L.P. – Hoje em dia, o género que realmente me preenche mais, que me coloca mais desafios e de que se pode dizer que a minha escrita se tem um pouco inclinado para ele, é o romance. Para mim, o romance está sempre presente, na medida em que, mesmo a escrever outros textos, de géneros completamente diferentes, no meu universo mental, em fundo, está sempre um romance. É um romance em que vou sempre trabalhando, pensando nele, embora existam momentos mais intensos ao nível da escrita do que outros. Aquelas personagens, aquelas ideias, vão estando sempre lá e vão-me acompanhando. O mesmo não acontece com outros géneros que acabam por ter aparições mais fugazes e entremeadas dentro daquilo que é a minha vivência da escrita. Ao mesmo tempo, é claro que com todos os géneros se aprende alguma coisa que acaba por ser útil em todos os outros também. No entanto, parece-me que o romance, dada a complexidade da sua natureza, é aquele que mais facilmente absorve todas essas experiências de escrita e todos esses ensinamentos que vou recolhendo, desde a poesia até ao trabalho com coreógrafos, que também já aconteceu.

– Podemos esperar que, depois deste “Abraço”, venha daí um romance?

J.L.P. – Sim, em algum momento virá um romance, não sei muito bem quando. Para já, tenho diversos projectos que ainda estão a ser desenvolvidos e entre eles existe sempre um romance. Não vai ser a minha próxima edição, porque tenho prevista a publicação de um livro para crianças muito em breve, o que para mim também é uma experiência nova.

– O facto de escrever letras para músicas é uma forma de manter uma ligação a um universo que também lhe é caro?

J.L.P. – Sim. Para já, a música pop parece-me completamente inescapável dentro da nossa cultura para alguém da minha idade. Muito daquilo que aprendi, que me formou, não no sentido académico, e que me fez tomar algumas decisões estéticas, foi ao nível desta música pop. Ter oportunidade de ver aquilo que escrevo a ser cantado é muito forte. Ter oportunidade de ver, como já me aconteceu, essas mesmas palavras a serem cantadas em coro pelo público num concerto é algo que me realiza e me toca muito fundo.

– Torna as palavras mais reais.

J.L.P. – Sim, dá-lhes um papel, uma função, sem que esta palavra tenha o sentido redutor e empobrecedor que já se lhe deu noutros momentos. Acho interessante que aquilo que se escreva tenha uma utilidade, sendo que essa utilidade não vai ser certamente a mesma que um martelo ou que uma chave de fendas, mas que faça bem às pessoas, que esteja presente na construção que as pessoas fazem delas próprias e que seja boa.

– O que é que espera que as pessoas consigam construir a partir deste “Abraço”?

J.L.P. – Um abraço é sempre algo que, à partida, pode ser positivo para os outros, que pretende ser positivo para os outros. Acreditando que abraços geram mais abraços, aquilo que espero é que este livro fale de assuntos que são realmente humanos, que são de uma pessoa, e que as outras pessoas se possam também encontrar a si próprias na sua humanidade. Há um texto desse livro que se chama “Debaixo da roupa estamos todos nus”, e efectivamente é assim (risos). No fundo, é isso – que olhemos para aquilo que é importante, para aquilo que é essencial, porque estamos vivos e acho bem que aproveitemos isso, que tiremos o maior partido possível desse milagre que é estarmos aqui.

 

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