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O idealismo de Sepúlveda

Pedro Galinha

 

A par de Ignacio Padilla, Luis Sepúlveda é o único escritor não espanhol que venceu o Prémio Primavera de Romance. Corria o ano de 2009 e nas livrarias pontificava uma capa vermelha, com o seu nome, que servia como única imagem uma chávena de café, cuja espuma formava a inevitável foice e martelo. Inevitável porque esta é uma história autobiográfica em que somos convidados a viajar até ao Chile, país natal do escritor.

Para perceber tudo isto, é importante dizer que Sepúlveda fez parte da guarda pessoal de Salvador Allende e, depois do golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973 liderado por Augusto Pinochet, foi preso. Com o apoio da Amnistia Internacional acabou por ser libertado, mas, pouco tempo depois, rumou à Nicarágua, onde chegou a ser guerrilheiro e apoiou a revolução sandinista.

A partir disto, parece ser fácil assimilar “A Sombra do que Fomos”: um pequeno, leve, mas interessante romance que conta “a história de exílios e gente banida, de sonhos desfeitos e ideais arruinados”.

Dito neste estilo dramático, pelo próprio autor, a obra parece ser um hino à desilusão e tristeza. No entanto, toda a narrativa oferece uma boa dose de humor e ironia guarnecida com compaixão e amor – o que até funciona bem em tempos de crise para tantos.

Mas vamos ao que realmente interessa. Pegando no romantismo de quatro sexagenários, antigos militantes de esquerda derrotados pelo golpe de Pinochet, Luis Sepúlveda serve-nos a esperança que as segundas oportunidades nos podem oferecer. Neste caso, essa passa por reescrever a História e ergue-se num velho armazém de um bairro popular de Santiago do Chile. Os camaradas Cacho Salinas, Lolo Garmendia e Lucho Arencibia voltam a reunir-se 35 anos depois, convocados por Pedro Nolasco. Sob as suas ordens, os quatro vão executar uma arrojada acção revolucionária bem ao estilo da América do Sul. Contudo, quando Nolasco se dirige para o local do encontro é vítima de um acidente que provoca a sua morte.

Os três amigos, diante do atraso do cabecilha deste reajuste de contas há muito adiado, especulam. Interrogam-se. E o mesmo faz o leitor quando Sepúlveda deixa em aberto algumas questões no livro. Uma prática, aliás, comum aos restantes livros do autor que nos fazem sempre pensar “por que não foi mais longe?”.

Ainda assim, não podemos considerar isto um ponto negativo. Até porque dá a quem lê a oportunidade de problematizar um sem número de questões e viajar no tempo – no seu próprio tempo – entre o passado, o presente e o futuro.

Se fosse uma película de outras épocas, “A Sombra do que Fomos” encaixaria naquela secção de “filmes de derrotados” cheios de tipos que, apesar de não fazerem vingar as suas posições, conquistam o espectador com o seu idealismo – concordemos ou não com ele – e tornam-se vencedores diante dos olhos de quem os vêm.

Em suma, podemos considerar este um bom argumento, mas não tão marcante nem tão belo quanto outros do autor chileno que é o terceiro escritor mais lido de toda a América do Sul, depois de Paulo Coelho e Gabriel García Marquez. Mesmo assim, fica a sugestão que, nas tardes/noites ventosas que já chegaram e parecem querer ficar, pode ser uma boa forma de sair do conforto de casa até um Chile sacrificado, cujas feridas ainda hoje não sararam.

 

A Sombra do Que Fomos

Luis Sepúlveda, 2009

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