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Filho de quem?

Isabel Castro

 

De mil homens. Ou dele – Valter Hugo Mãe decidiu escrever um livro sobre um homem de 40 anos que queria muito ter um filho. E não tinha. Também Valter Hugo Mãe tem 40 anos e filho nenhum. “Sei bem que sou filho de mil homens e mais mil mulheres. Queria muito ser pai de mil homens e mais mil mulheres.” (p. 258), escreve o autor na nota que fecha o seu mais recente romance, dedicado “às crianças”.

“O filho de mil homens” traz-nos a história de Crisóstomo, pescador e homem incompleto. “Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas.” (p. 15). Este homem do mar comprou numa feira um boneco de pano que passou a abraçar sentado no sofá, enquanto ensaiava o que poderia dizer a um filho de verdade. É assim que o livro de Valter Hugo Mãe, que passou a escrever e a escrever-se com maiúsculas, começa o livro. E talvez pudesse ter começado melhor – um pescador abraçado a um boneco e a desejar filhos é coisa difícil de acreditar na nossa portugalidade piscatória.

A história evolui do boneco para um “rapaz pequeno de catorze anos, deitado à vida depois que o seu avô morrera.” (p. 21). Chama-se Camilo e aparece na história para que se cumpra o desejo de Crisóstomo. Mas também tem outras funções, desde logo pela forma como veio ao mundo: filho de uma anã, é ele o filho de mil homens.

A mãe, a anã de que todas as vizinhas se apiedavam por ser tão anã, morreu “assim que o menino nasceu”, o que na realidade deu jeito às vizinhas, esgotadas de piedade. “Quanto maior importância dessem ao mundo sucedido, mais parecia que acusavam da paternidade. As mulheres fecharam as bocas e olharam para os lados, ficando mais lá por casa com os maridos quietos, dominados, para serem castigados depois, lentamente, com uma vida inteira de rotina e miséria espiritual.” (p. 44).

Cada um dos 20 capítulos do livro vai acrescentando personagens – todas elas padecedoras de bastante bizarria, enjeitadas e tristes – para as ir cruzando numa estranha teia de relações. É assim que aparece Isaura, filha de Maria, a mulher que um dia acordou “e falou como se fosse francesa” (p. 47). Isaura há-de ser metade de Crisóstomo, mas só a meio de uma vida que a consumiu até ao osso. Criada entre bichos, pais austeros e terras, é-nos apresentada como mulher de filosofias. “A Isaura pensou nisso. Na igualdade dos homens e na oportunidade de diferença das mulheres.” (p. 59).

A verdade é que nem todos os homens são iguais – e é neste contexto que vive Antonino, filho de Matilde. Antonino gosta de homens, desajeita-se com as mulheres. E “A Matilde não conseguia entender porque lhe aconteceria um horror assim.” (p. 107). Vivem ambos num contexto social cruel, em que homens destes não são para existir. Num livro que se pretende feliz, Valter Hugo Mãe vai abordando preconceitos. Mas logo os deixa cair – é um livro de pessoas tristes a caminho da felicidade.

Valter Hugo Mãe, mesmo com maiúsculas, escreve bem. Escreve limpo, com força, com imagens que ficam. Sabe escolher palavras, dispô-las nas frases para que passem a ter novos sentidos. Sabe apresentar-nos o mundo que imaginou. Neste aspecto – o da construção de um mundo – o escritor vai bem. Menos conseguidas são, no entanto, algumas personagens deste universo: Crisóstomo não chega a ser real, Matilde peca por excessiva crueldade, quase todas os homens e mulheres têm demasiada filosofia na boca. Até o miúdo – o filho de mil homens.

Talvez o problema esteja no que veio antes. Nem sequer precisamos de recuar muito: basta pensar em “a máquina de fazer espanhóis”, livro de grande densidade, que nos puxa lá para dentro e de onde a custo saímos. Crisóstomo, Camilo, Isaura, Antonino, Matilde e os outros não são os silvas, porque não chegam a ser de carne e osso. Falta-lhes a força necessária que se pede num livro que, embora dedicado às crianças, tem os adultos como destino. E os adultos já não acreditam em teias de vidas complicadas com felizes finais.

 

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