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Pele da tua pele, sangue do meu sangue

A pele é aquilo que nos contém, que nos forma. Gostamos de acreditar que somos mais do que carne e osso, sangue, músculos, células, mas até que ponto a mudança daquilo que nos envolve muda aquilo que somos?

O mais recente filme de Pedro Almodóvar é uma bizarra, incorrecta e perturbadora história sobre a identidade humana, sobre auto-percepção e, em última instância, sobre o irresistível desejo de moldarmos os outros à nossa imagem.

António Banderas é desta vez Robert Ledgard, um gélido cirurgião com uma abordagem liberal às questões éticas. Há nele algo de inquietante, apesar de apelativo, e à medida que o filme avança é impossível não estabelecer ligações ao famoso Dr. Frankenstein. É que “La piel que habito” foi inspirado no romance francês “Mygale” de Thierry Jonquet, já descrito como “uma profana junção de Sade e Sartre” – conta a história de um médico que tem na cave de sua casa uma sala de operações secreta. A este já complexo cenário junta-se uma filha adolescente internada num asilo e uma bela jovem trancada a sete chaves.

Almodóvar pega nisto e cria algo entre o thriller e a poesia, uma macabra história de dor, esperança e amor, sempre envolvida num gigantesco complexo de Deus.

Levantemos um pouco o véu – mas não muito, que o filme é repleto de inesperadas reviravoltas. Começamos por ver Ledgard apresentar uma descoberta perante a comunidade científica: uma nova pele capaz de resistir ao fogo e às picadas de insecto. Chegado a casa – uma casa dessas de portas automáticas, tectos altos e televisões que transmitem imagens de câmaras de vigilância –, vemo-lo mexer em pipetas, olhar por microscópios, calçar luvas de borracha e batas de médico. Há sangue de animal envolvido, devidamente acondicionado. Estranhamos. Mas, afinal, é Almodóvar, por isso continuamos.

Há uma cena especialmente marcante, que traduz a excentricidade do filme, bem como o seu elevado carácter estético: é quando Ledgard observa a imagem de uma mulher nua, deitava de costas numa cama. A casa, que o espectador já havia percorrido com o médico, está repleta de grandes quadros de mulheres despidas. Por isso, naqueles segundos de contemplação, não sabemos se olha para uma perfeita pintura ou para um ser animado. Até que ela se move.

Esta bela jovem, que vive trancada num quarto da mansão, é constantemente observada pelo homem que, por esta altura, já suspeitamos ser um tanto ou quanto lunático.

Um flashback permite-nos descobrir que a mulher do médico havia morrido com severas queimaduras, após um acidente de carro. Fica explicada a sua obsessão em criar uma película especialmente resistente para revestir o corpo humano. Descobrimos também que a filha do casal, traumatizada com o acidente da mãe, sofre de severas perturbações do foro psicológico e acaba por se suicidar.

Por esta altura achamos que topámos Almódovar. Já percebemos onde ele quer chegar e as motivações do seu Frankenstein. Mas a verdade é que nada nos preparou para o que se segue, nem depois de “Habla con ella”. Explicá-lo seria estragar o filme, que ainda agora saiu, mas podemos adiantar que, à semelhança da produção de 2002, o realizador consegue pegar num gesto horrendo e transformá-lo numa espécie de acto de amor doente.

A jovem trancada no quarto é Vera, interpretada por Elena Anaya, que consegue combinar num corpo franzino uma fragilidade desconcertante e um felino instinto de sobrevivência. É ela o ratinho de laboratório de Ledgard – constantemente dividido entre o repúdio e a atracção – e é também ela que, em apenas quatro anos, viu a vida mudar por completo. Uma mudança tão grande que nem o nome restou de lembrança.

Marisa Paredes encarna a dedicada Marilia, a empregada que é também mãe do médico, apesar de ele não o saber. Tendo dado à luz dois filhos com comportamentos que roçam a psicose, desabafa um dia a Vera: “Tenho a loucura nas minhas entranhas”. Enquanto o diz aperta o ventre por segundos, retomando em seguida a tarefa de que fora incumbida: tirar da cama os lençóis embebidos em sangue.

“La piel que habito” junta mistério, drama, acção, ficção científica e toques de surrealismo. Faz pensar em Goya, faz lembrar o “Perfume” de Patrick Süskind, e traz-nos à memória todas essas obras de arte em que o mais terrível é, na verdade, o mais apelativo.

La piel que habito | Pedro Almodóvar, 2011

Inês Santinhos Gonçalves

 

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