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À volta do monte

“Alto! Sentido!” – ordenam-nos à porta, canhões apontados ao sol que derrama para lá da cidade e se afunda no horizonte interrompido. É, à porta, São Jorge que ergue a espada sobre a cabeça dos visitantes, e os chama a exóticos sentidos de caracteres românicos que apregoam uma “história linda” antes de os porem nos braços da virgem e do menino, pórtico do primeiro patamar para quem sobe a escadaria.

Lá de cima há vistas e escudos de cinco quinas. Por fora, a volta ao monte faz-se de 11 esquinas. Nas margens do trapézio irregular, equilibram-se, alternadamente, pelo menos, outros 11 desportistas. Alongam-se, torso encostado ao joelho e expiram.

Cães de sentinela vigiam nas patas curtas, com o sentido nos latidos que partem dos quintais rasteiros. O sol continua a escapar pelas encostas, prende-se no arvoredo, escorre nas escadas de pedra, forma pequenas poças de luz no chão castanho, sossego, a evaporar.

O ar um pouco mais leve, o fim de tarde. Ao alto, jogos de bandeiras, de sentidos, os soldados que não lêem, a beligerância dos santos, as canhoneiras vazias. A fortaleza não é bem isto. A invencível firmeza está hoje em subir a calçada a eito.

Cá em cima, a contornar as muralhas, esquina a esquina, há quem componha uma vista panorâmica com recortes da cidade. Este-norte-oeste-sul. E quem cavalgue sobre ferro na fotografia, com o disparo na recordação.

A vida do monte antes do sol recolher a poente, para esta breve memória descritiva acompanhada de imagens, faz-se de mais que gente. Há o rafeiro vigilante de barriga a tocar o chão, mas também o poodle lãzudo, que mata a sede junto à mangueira de rega que refrescou a vegetação. Há rolas de pescoço ondulado a bicar o chão e borboletas pretas e amarelas de remoque sobre o canal por onde a água corre para descer.

Há ainda as raízes que nos cercam, sobre o chão ou caindo em meadas sobre as nossas cabeças. Com elas, tecemos juízos, de fazer e desfazer, amanhã, que o último sol aquecendo as cabeças de Outono adormece e deita por terra. Alto! Guardamos as imagens no bolso para um dia delas tirar sentido.

Maria Caetano

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