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Numa bolha sem paz

Isabel Castro

 

Fosse o cenário de “The Bubble” outra coisa qualquer e “The Bubble” teria pouca piada. Seria mais um filme de amigos, de relações atribuladas e pouco aprofundadas, com umas festas, ácidos e garrafas de água à mistura. Lulu é bonita e desperta amores assolapados; Noam é um rapaz calmo e delicado; Yali é um homem com piada, gerente de um restaurante onde os homens servem à mesa e as mulheres detêm o capital. Partilham casa, são bons amigos, levam uma vida mais ou menos descontraída. Noam e Yali são homossexuais assumidos numa cidade que não lhes apresenta obstáculos. Mas a cidade em que vivem é uma bolha. E é por viverem nesta bolha, chamada Telavive, que o filme de Eytan Fox ganha contornos políticos que acabam por o sustentar.

Noam cumpre o serviço militar junto da fronteira com Nablus. É assim que o filme começa e é na fronteira, numa humilhante acção de controlo a um grupo de palestinianos, que Noam conhece Ashraf. Encontram-se mais tarde e deste encontro nasce uma relação: o judeu Noam apaixonado pelo muçulmano Ashraf, que está apaixonado pelo judeu Noam. Ashraf que não tem autorização para viver em Telavive, que vive a homossexualidade às escondidas da família que o espera ver casado com a prima do futuro (e radical) cunhado.

É em torno desta relação impossível que “The Bubble” acontece. A Lulu não faz confusão que Ashraf seja muçulmano; já Yali dá a entender, a certa altura, que o jovem palestiniano não é quem parece ser. A Noam nada disto interessa – nasceu em Jerusalém, onde em tempos também Ashraf viveu. Eram os dois miúdos numa cidade que não era uma bolha e onde judeus e muçulmanos ainda coexistiam. Uma coexistência sem convivência mas, ainda assim, uma partilha de espaço.

“The Bubble” é sobretudo um filme sobre assimetrias. De um lado está Telavive, uma cidade com música, lojas, bares e restaurantes de bom aspecto, com gente que vive com aparente normalidade. Os putos mais evoluídos não querem saber das diferenças impostas pela religião, pela política da religião, posam nus pela paz, organizam festas pela paz. Mas há quem seja diferente, não tolere muçulmanos, se indigne, os queira longe. Que queira ver Ashraf do lado de lá, depois da fronteira e da estrada com buracos. Nablus é uma profusão de casas, telhados, pó, mulheres de rosto e cabelo cobertos, gente que reza a Alá e que acredita que um mártir só se vinga com dez, cem, mil mortos. E Ashraf, como é?

Ashraf é um jovem como Noam. Também ama, também chora, também sente – e aí “The Bubble” é um filme sobre semelhanças, encontros, coincidências. Também quer paz e sair da bolha em que vive, quer não ter de percorrer caminhos longos e perigosos para ser, quer que o aceitem como é. Mas a verdade é que, apesar das vontades comuns, o filme de Fox acaba por ser só sobre a diferença. Mesmo sendo a morte e a falta de paz iguais para todos. Judeus e muçulmanos.

Bem realizado, com um ou outro pormenor dispensável (viveríamos bem sem os flashbacks, que tornam piegas um filme que tenta fugir a sentimentalismos), “The Bubble” é para digerir com calma. Não é uma obra de arte – nem tinha de ser – mas o lado político que se acrescentou ao que seria um frugal quotidiano faz com que se tenha tornado um trabalho sério, para pensar. O casting ajuda: Lulu (Daniella Wircer), Ashraf (Yousef ‘Joe’ Sweid) e Yali (Alon Friedman) foram excelentes opções. Nota positiva ainda para a banda sonora: Fox recupera Tim Buckley, que fica bem em qualquer filme que se preze.

 

The Bubble

Eytan Fox, 2006

 

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