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A tentação da lista

Do porno ao Guia Michelin e ao fim de ano, o nosso impulso por tudo ordenar

Carlos Picassinos

Listamos tudo, inventariamos tudo, ordenamos tudo. Porquê este desejo de regra?

Especialmente nesta altura do ano, das listas de Natal aos balanços de fim de ano, deitamo-nos a um exercício de inventariação e projecção. E fazemos listas do que passou, do que desejamos que aconteça, tal como as crianças nas cartas ao Pai Natal ou os crentes num templo em oração. Obedecemos ao impulso de memória, de desejo, de autoridade do céu e da terra. Respondemos a uma necessidade de ordem, de lugares, de afectos, de ideias, de dar uma regra para melhor compreender (e também controlar). Resume-se, selecciona-se, depura-se. Elencam-se prioridades e objectivos. E assim navegamos no princípio deste século como ao longo de toda a modernidade. Só que agora, provavelmente mais do que antes, a lista assume um carácter sagrado.

Há listas de tudo, negras e mailing lists, de supermercado, dos artigos mais lidos ou dos vídeos mais vistos, dos acontecimentos do ano, dos top +, os dez mandamentos, há listas burocráticas e de instruções, e cânones e ficheiros. Já não temos um só género literário nem tão pouco musical. Não só pop, rock, blues ou jazz. Prolifera uma multiplicidade de linguagens, subgéneros e siglas. No Guiness tal como no guia Michelan. E no porno. No porno então, nem falar. Provavelmente, mais do que noutro consumo, é aqui onde se ensaiam os modelos de consulta e relação mais eficazes. Não se fica pelo binarismo homo ou hetero. A complexidade abrange uma infinita combinatória de siglas e subgrupos – BBW, BDSM, MILFs – que registam e organizam o desejo numa taxonomia de categorias afim ao universo da clínica, da biologia ou da polícia.

O fascínio pelo elenco, a tentação de coleccionar própria dos modernos, sugeriu a Umberto Eco o livro “A vertigem das listas”, onde o intelectual italiano se propôs reunir uma série de referências literárias e imagéticas sacralizadas pelos museus ou pelo imaginário colectivo. Nada que o “Atlas Mnemosyne”, de Aby Warburg, não tivesse, afinal, já inaugurado na sua busca fulgurosa pelas energias do arcaico e do pathos mas, ainda assim, esta reabilitação da lista por vários intelectuais e artistas acabou por recuperar aquele formato gráfico e cognitivo para uma estética contemporânea como modelo de conhecimento.

No ano passado, após uma busca às listas dos seus fundos, o Instituto Smithsonian, de Washington, organizou a exposição “Lists” expondo uma série de trabalhos de artistas contemporâneos numa variação de modelos sobre o que se poderia designar como tal, e onde pontuavam Hans-Peter Feldmann, Christian Boltanski, Picasso ou Picabia. A propósito deste e do seu projecto “L’Oeil Cacodylate”, de 1921, escreveu Jean Cocteau: “Ninguém se sentia menos observado que nós, naquela época. Vivíamos sem pretender sobrevivermo-nos […]”.

Se as listas nos organizam num mar encrespado da informação e do byte, também nos fazem tropeçar na contingência do subjectivo e do segmentado. Dizia Paul Valery: “O moderno contenta-se com pouco. Um ouvido moderno, um olho moderno, são um ouvido e um olho em que uma combinação de sons ou de cores, tomada ao acaso, tem muito mais possibilidade de agradar do que a um ouvido não moderno. O moderno parece gostar tanto mais do que seja quanto menos lhe exija atenção. Eis um facto que afecta o desenvolvimento das ciências e que há-de degenerar numa acumulação irreprimível de factos”.

A pulsão da enciclopédia total é reconhecida, mas uma das possibilidades das listas é, justamente, discordarmos delas – é ler “You Can Find Inspiration in Everything (And If You Can’t Look Again)” do estilista Paul Smith – e oferecermos outras leituras do mundo. A nossa favorita é aquela de Calvino nas “Seis Propostas para o Próximo Milénio” que são cinco: multiplicidade, exactidão, visibilidade, rapidez, leveza. Ou, mais a outra, a de Borges e do punhado de justos de cada geração – o casal que lê Dante, os que cultivam o seu jardim, os que agradecem que haja música na terra, os que acariciam um animal enquanto dorme –, os que justificam a paciência de deus na perpetuação do mundo.

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