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Dez discos que nos caíram no prato

Música no coração

Carlos Picassinos

Vamos por quotas, por onde haveria de ser, perdidos na floresta torrencial da produção discográfica de doze – do-ze – meses e quase tantos géneros, transgéneros, fugas ao cânone, vínculos à tradição e ao contemporâneo, ao clássico contemporâneo e ao propriamente dito. Fazemos marcha atrás e jazz, indie, folk, pop, world, rock, electrónico, nacional (brasileiro) e bom.

PJ Harvey | “Let England Shake” (rock/pop)

Não fosse quem é e não seria esta uma elegante elegia à desolação do contemporâneo, no sentido inefável do interdito ao dizer. Daí este passeio sem punhos nem decibéis urrados, mas apenas um poema fantasmagórico aos mortos ingleses da batalha de Gallipoli, em Itália, 1915. Como se connosco partilhassem ainda a mesa sepulcral do presente.

Tom Waits | “Bad as Me” (rock)

Ele sempre foi grande, um monstro no desenho de imagens, estados de alma, ambientes e punch lines, enfim, na escrita de canções. Neste “Bad as Me”, ele continua igual a si próprio, devedor de tantos outros, e não seria estranho tropeçarmos em Bob Dylan ou em Jack Kerouac. Waits nunca negou a semente beatnick e, por isso, neste trabalho recorre a uma operação de selecção da história da música de modo a conseguir produzir aquela criatura híbrida que o transporte com segurança até onde ele quiser chegar.

Andreas Scholl | “O Solitude”, Purcell (clássica)

Já antes, o contratenor havia arrebatado, por exemplo, com “Ombra Mai Fu”, de Xerxes, Handel. E, por isso, agora este “O Solitude” confirma a epifania precedente já que Scholl aparece com um domínio comovedor da obra do compositor inglês especialmente visível em “Lamento de Dido” ou “Sweeter than roses”, e ainda em registos tão distintos quanto a música de câmara ou os trechos de semi-óperas.

Fred Hersch | “Alone at The Vanguard” (jazz)

Um piano solo que congrega as tradições do jazz numa sonoridade reservada e em busca pela fragilidade do mundo e da herança dos grandes pianistas. Foi gravado ao vivo no clube Village Vanguard.

Fausto Bordalo Dias | “Em Busca das Montanhas Azuis” (folk)

Trinta anos é muito tempo mas Fausto, um dos sobreviventes da onda dourada da música de intervenção, reabilita o seu projecto (mais historiográfico que musical?) sobre a história dos portugueses dos séculos XV e XVI nas várias partes do mundo. Trata-se da conclusão de um passo que começou “Por esse rio acima”, em 1982, e que constitui uma das impressões mais singulares no panorama musical português.

Aldina Duarte | “Contos de Fados” (fado)

Como os chapéus, há muitos fados, mas o de Aldina assume uma expressividade particular na oscilação entre a crueza que entrega à voz e a teatralidade contida na interpretação de alguns temas. Mais do que o fado, “Contos de Fados” convoca também a literatura e a poesia do mundo. E aí, Aldina brilha.

Lenine | “Chão” (rock)

Com quantos Brasis se faz um Lenine? Depende por onde se começa a contar. Desta vez, pelo chão, assim mesmo, com este som nasal que faz estremecer o corpo e que é a matéria do seu último trabalho. Um grande trabalho que opta por uma via mais experimentalista e mais ousada ao ponto de incluir o canto de um canário que se intrometeu nas gravações e levou Lenine a incluir neste chão sons do seu quotidiano.

James Blake | “James Blake” (electrónica)

Melodias intimistas, lamentos apagados pelo silêncio, um certo soul secreto atravessam este disco de estreia de James Blake que de uma assentada levou tudo à frente. Tudo, indústria, crítica e público. Fenómenos assim dá para desconfiar mas a lacónica candura do britânico foi suficiente para, neste fim de ano, o colocar aqui entre os top of the pops.

Washed Out | “Within and Without” (indie)

Ernest Green foi uma das descobertas do ano. Antes deste “Within and Without”, Green já era conhecido na blogosfera depois de ter colocado no seu MySpace uma série de músicas gravadas no quarto de sua casa na pequena cidade de Perry, na Geórgia. Ele já escrevia canções há mais tempo mas só no Verão passado decidira colocá-las online. Daí até ao aplauso com este primeiro trabalho foi um pequeno passo.

Anna Calvi | “Anna Calvi” (pop)

Calvi é o exemplo que antes de ser já o era. Há um ano, em Dezembro, a BBC apostava nesta britânica de ascendência italiana como um dos sons do ano que vinha. E ao longo de 2011, Calvi não desiludiu os jogadores. “Love Won’t Be Living”, por exemplo, foi uma das grandes canções do ano e, para quem está na Ásia, a digressão de Anna Calvi está marcada para Fevereiro. Se não houvesse PJ Harvey teríamos sempre Calvi, Anna Calvi.

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