Uncategorized

Macau sai mal no filme

Não coma, não saia de casa, não toque em nada, muito menos em pessoas. De preferência fique na cama, com a cabeça debaixo dos cobertores. É que o mundo é contagioso e não vale a pena arriscar.

Numa altura em que voltaram a ser encontradas em Hong Kong aves contaminadas com o vírus H5N1, responsável pela gripe aviária, ver “Contagion” não é recomendável. Principalmente porque por estes dias não falta gente de nariz a pingar, com tosse e febre.

Na verdade, tudo começa em Macau, mas só o descobrimos mais à frente. Beth (Gwyneth Paltrow) viaja para Hong Kong em negócios. E empresário que é empresário leva os convidados aos casinos da RAEM, para uma noite de agradável jogatana. Ela é loira, jovem e bonita e todos os homens querem que sopre para os seus dados (para dar sorte!), que pegue nas suas fichas, que se sente ao seu lado. Oferecem-lhe bebidas. Trocam-se copos. Tudo indica que o cenário seja o casino Lisboa.

Muitos abraços e apertos de mão depois, Beth regressa aos Estados Unidos onde é recebida pelo filho e pelo marido (Matt Damon). Em poucos dias morre, vencida por uma “gripe” fulminante e inexplicável. O pequeno Clark segue o mesmo caminho.

O que a princípio parecem casos isolados rapidamente se torna uma epidemia. Mas de quê? Hong Kong é apontada como o local de origem da doença, mas bastam algumas semanas para vários focos serem localizados pelo mundo inteiro. Os Estados Unidos, claro, são o palco de todos os acontecimentos, com o Governo a tentar evitar o medo generalizado, ao mesmo tempo que ensaia um plano de contingência.

Mas na era da Internet, já se sabe, não há segredos. Um blogger expõe teorias da conspiração e o pânico espalha-se. As fronteiras são fechadas numa tentativa de colocar cidades, estados e países de quarentena. Lojas são pilhadas, supermercados vandalizados, vivendas arrombadas em busca de mantimentos. Quem pode tranca-se em casa com uma espingarda à porta.

Entretanto, é Erin Mears (Kate Winslet) quem está encarregue de implementar o plano de emergência, sendo especialista em doenças infecciosas. Mas também ela tosse, também ela arde em febre, também ela rapidamente se torna vítima da doença que quis conter.

É por esta altura que o pânico se instala por completo. Apercebemo-nos dos pecados da globalização. Estamos todos irremediavelmente ligados. O mundo à distância de um avião, esse que tanto nos orgulhámos de construir, é uma maldição. Porque se a informação viaja à velocidade da luz, as doenças viajam à velocidade de um comboio, no mínimo. E é assim que o mapa-mundo no gabinete do Centro para Controlo de Doenças se enche de pontos vermelhos, que se alastram como manchas de tinta.

“Contagion” é um filme cheio de estatísticas: uma pessoa adulta toca, em média, ‘x’ número de vezes na cara, nos outros, nos objectos à sua volta. ‘X’, como se pode imaginar, é um valor altíssimo. Também há dados sobre períodos de incubação de doenças e taxas de imunidade. E letras escritas a vermelho no canto do ecrã: “Day 5, LONDON, ENGLAND population 8.6 million”. Tudo isto gera um certo sentimento de inevitabilidade – perante tal máquina multiplicadora de doenças, como escapar? Uma certa paranóia higiénica nas horas seguintes ao visionamento do filme é perfeitamente compreensível.

O filme de Steven Soderbergh pode ser apenas mais um thriller sobre catástrofes à escala mundial, mas por estes lados foi um pouco mais que isso. O tema é sensível, em especial para Hong Kong, onde a pneumonia atípica matou cerca de três centenas de pessoas em 2003. As autoridades do território vizinho também não são retratadas da forma mais profissional e isso talvez explique a falta de entusiasmo com que a imprensa da RAEHK recebeu a produção.

Acima de tudo, “Contagion” é um filme que assusta. Porque a ameaça não são exércitos, nem terroristas, nem mesmo extraterrestres. O inimigo é composto por uma matéria que nos rodeia mas que não vemos e que a ciência um dia pode não conseguir decifrar.

A vida, claro, continua após a descida dos créditos. Neste mundo repleto de bactérias, de micróbios e fungos, o anti-séptico é parvo. Quem não põe as mãos na terra não sabe viver. Disso temos a certeza. Até um dia.

Inês Santinhos Gonçalves

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s