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Todas as letras do ano, de autobiografia a pulp fiction

Ai! A literatura!!

Carlos Picassinos

O ser humano, a família, o Ocidente vivem um tempo de mutação traumática. Mais do que o jornalismo duro ou a crónica afiada, a literatura e o ensaio recolhem esse mal estar de forma magistral. Livros tantos como os que não constam das listas de fim de ano (e menos mal) são essenciais para compreender as circunstâncias da humanidade. Podiam constar aqui “Nemesis” de Philip Roth, ou de Günther Anders, “A obsolescência do homem”, ou ainda do execrado Houllebecq, “O mapa e o território”, (e o Nobel? Alguém leu o escandinavo Tranströmer?). Podiam, mas decidimos indicar outros que testemunham, sem contemplações, esta metamorfose em curso.

“Viver no Fim dos Tempos” | Slajov Zizek

(Relógio d’Água)

O mago de turno da nossa inteligentsia ocidental, o leninista paulino Slajov Zizek proclama neste livro o fim dos tempos capitalistas. A evidência ampara-se no que designa os quatro cavaleiros do apocalipse: os desequilíbrios do sistema económico, a revolução biogenética, as divisões sociais impossíveis e a crise ecológica. Daqui para a frente, o que importa é recuperarmos do erro que, após 1989, a Europa cometeu ao desprezar um espaço utópico potencial como o que o Leste acolhia. Em vez de refundar um mundo a partir das ruínas desse modelo de socialismo real, o mundo abraçou uno o sistema ocidental pró-americano e os seus jogos de poder e normalização cognitiva. Por isso, aqui estamos no fim dos tempos e para viver no fim dos tempos há que reabilitar o significado radical do conceito de comunismo – o que é comum – e assim construir novos sentidos.

“Crítica da Razão Cínica” | Peter Sloterdijk

(Relógio d’Água)

Um livro incontornável, inescapável, imprescindível, que faz de Sloterdijk um dos mais sólidos pensadores da racionalidade pós-moderna. A razão cínica, hipócrita, moral, corrupta apodera-se de fenómenos como os dos homens chineses que partem as pernas para terem os membros mais longos, sem curvas e com uns centímetros a mais, o de rapariguinhas portuguesas que reservam parte do seu tempo para arrebitar as nádegas ou as jovens brasileiras que enchem o corpo de tatuagens. Um tempo de narcisismo obsessivo e deformação do que é humano, da emergência do deboche, versão dinheiro ou versão fascínio, como lei moral apetecível.

“A Questão Finkler” | Howard Jacobson

(Porto Editora)

Vencedor do Man Booker Prize de 2010, traduzido este ano, para português europeu, o livro de Howard Jacobson recupera dos anais da literatura esse pobre príncipe Hamlet para o incorporar na figura de um judeu norte-americano, Julian Treslove, que aos 49 anos nunca tomou qualquer decisão na vida. Disseram, judeu? É uma incógnita. Pois se Treslove não conhece, exactamente, a sua identidade, e se a identidade é fruto de uma decisão e se Treslove nunca tomou nenhuma na vida como pode então Treslave ser aquilo que dizem que ele é, judeu? Mas será esta a questão da “Questão Finkler”? Mas quem é Finkler, afinal?

“Liberdade” | Jonathan Franzen

(Dom Quixote)

Dizer de “Liberdade” o que se afirmara de “Guerra e Paz”, de Tólstoi, o maior romance do século não deixa de ser uma veleidade hiperbolizada. Nem que seja porque o século ainda agora vai no adro e a distância não permite uma apreciação crítica consistente e, no entanto, e do que vai destes anos, o romance de Jonathan Franzen é um monumental fresco sobre a América e os dilemas internos dos personagens que hoje a habitam. Se houvesse o prémio livro do ano, “Liberdade” seria um dos fortes perfilados.

“La Coca” | J. Rentes de Carvalho

(Quetzal)

O Minho. O Minho sórdido, contrabandista, esquálido, nocturno, mas também autobiográfico de certa maneira. Como nunca antes, José Rentes de Carvalho foi o-recuperado-do-baú-esquecido-da-família do ano abençoado como o novo Catão das letras portuguesas. “La Coca” acolhe, particularmente, essa escrita fina, culta e clássica de Rentes para descrever a opacidade das relações de fronteira, aqui, literalmente de fronteira e a mundividência partilhada pelas gentes do Minho e da Galiza. Os tráficos, os heróis caídos, a crueza das solidões, da violência latente, os sem escrúpulos e as pequenas traições. Tenho a impressão que em “La Coca” já não estamos bem no Minho.

“O Retorno” | Dulce Maria Cardoso

(Tinta da China)

Deste “Retorno” já se disse tanto que não deixa de ser significativo o interesse prestado ao relato, ainda que ficcional, dos colonos portugueses em fuga apressada de Angola antes da independência e da guerra civil. Significativo porque outras obras antes desta de Dulce Maria Cardoso haviam regressado ao trauma embora sem a análise e reconhecimento público devidos. Seria curioso o confronto ou, pelo menos, um diálogo entre a visão de uma retornada a Portugal, como se assume Dulce, e a de um escritor pós-colonial como José Eduardo Agualusa.

“Portugal. O Mediterrâneo e o Atlântico” | Orlando Ribeiro

(Sá da Costa)

É uma reimpressão do clássico do nome maior da Geografia produzida em Portugal no século XX, talvez, a obra mais conhecida de Orlando Ribeiro. Para lá do interesse obviamente científico não deixa de emprestar ao leitor a melancolia da perda. “Portugal” regista a permanência de um mundo antigo mas, ao mesmo tempo, também o processo de erosão civilizacional que o afecta. Os traços deste mundo, e ainda mais do que em 1945 quando deu à estampa, são hoje perceptíveis nos restos e memórias de uma forma de vida milenar feita de tempos lentos, de modos agrícolas, paisagens vegetais, ritos arcaicos. O fim de um mundo pré-industrial e pré-moderno que perdurou, não só em Portugal mas no sul da Europa, até ontem, há pouco mais de meio século.

“O Som do Sôpro” | António Barahona

(Poesia Incompleta)

O último dos surrealistas, disseram este ano de António Barahona. Não deixa de ser relevante a conversão deste poeta ao islamismo para se entender o fundo místico e a carga erótica da sua poesia tão constante numa certa linha oriental onde o sufismo pontua. “O teu corpo é mais belo na minha cama./ Do que um céu de alegria sobre o mundo” ou “O poeta. É um asceta/ que renuncia ao oiro do mundo/ mas não aos frutos da Terra”. Um segredo mal guardado.

“Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa” – Os melhores contos do século XX | Vários Autores

(Saída de Emergência)

É a reabilitação de um género que o Estado Novo tentou fazer desaparecer, como diz o livro na capa. Trata-se de uma compilação de contos de vários autores em redor de um género literário, o pulp. Em palavras miúdas, histórias de amazonas seminuas e feiticeiras bárbaras, experiências radicais nazis nos campos do Alentejo, seres milenares que despertam de um sono eterno ao largo de Cascais, e ameaças cósmicas a Portugal antes de, na última página, tudo voltar à normalidade habitual. Lê-se de um sopro.

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