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Justiceiro ao volante

Os tempos mudam, mas algumas coisas permanecem e um homem ao volante continua a ter uma certa aura cool. E se o condutor for Ryan Gosling, envergar um casaco de piloto com um escorpião dourado nas costas e comprometer a vida para defender um amor platónico, então o grau de pinta dispara.

Este herói, que nunca usa arma, tem nome ausente. Logo isso diz muito sobre “Drive”, uma produção que usa (mas não abusa) das características típicas dos filmes noir de Hollywood. Gira em torno de um crime – na verdade, em torno de uma série de intrincadas vinganças que seguem um crime – e de um solitário e enigmático condutor que se vê envolvido com a máfia, ao tentar vir em socorro de uma donzela. Bem ao jeito dos filmes americanos dos anos 1940 e 1950, em “Drive” as boas intenções nunca são recompensadas – são antes atraiçoadas, golpeadas, esfaqueadas, apunhaladas e todos os possíveis sinónimos da palavra.

Mas comecemos pelo enredo. O herói sem nome é já por si uma estranha figurinha. Divide o tempo a ser duplo de cinema em cenas perigosas de carros e a trabalhar como mecânico. Pelo meio, dedica-se a conduzir criminosos, ajudando-os a chegar e a fugir das zonas dos roubos. Fá-lo com uma precisão matemática, tendo no tablier do carro três mostradores de relógios. Não há nada que este ás não consiga fazer ao volante.

A sua solitária existência é agitada pela presença da vizinha Irene (Carey Mulligan), mãe de um rapazinho e dona de uma cara de anjo que faz dela o símbolo perfeito de pureza e fragilidade. Bom, se ignorarmos o marido gangster. Enquanto ele está na prisão, o herói aproxima-se da jovem empregada de mesa e do seu rebento. Os três fazem longos passeios de carro e vivem alguns momentos de felicidade doméstica. Entre o casal o máximo que vemos é um tocar de mãos, assim por cima da caixa de velocidades, que este filme é sobre carros e não nos podemos esquecer disso.

O paraíso pouco dura. O marido de Irene sai da prisão e imediatamente se vê envolvido em esquemas perigosos. Para o bem de mãe e filho, o herói decide ajudar – afinal já tem experiência no mundo do crime. Mas tudo corre mal.

Entre complicados esquemas da máfia surge Christina Hendricks que, apesar de ter apenas um pequeno papel como Blanche, rouba o ecrã em cada cena em que entra. Nisto vamos a meio do filme e a candura da primeira parte transforma-se numa sequência de violência inesperada, com Gosling a surpreender pelas tiradas sangrentas que contrastam com o seu olhar meigo.

À medida que o filme avança, o casaco brilhante do herói vai ficando manchado de sangue. O casaco, as mãos, os sapatos. Ele é uma espécie de justiceiro ao volante, sem remorsos e com acessos de fúria que resultam em cabeças desfeitas ao pontapé. Pouco fala e a única vez que perde a compostura é quando descobre que a sua amada poderá estar em risco. Um clássico.

A certa altura, o condutor evoca a fábula do escorpião e do sapo, aquela em que ambos se afundam a atravessar o rio porque o escorpião não resiste e pica o sapo, dizendo que é da sua natureza. Se nos lembrarmos que em todas as cenas o herói enverga um glorioso escorpião nas costas, ficamos com uma ideia um pouco mais clara sobre esta figura misteriosa.

Gosling não desilude. Tinha tudo para ser um DiCaprio dos velhos tempos, um palminho de cara que faz dele o sonho teenager de qualquer blockbuster. E foi assim que brilhou em “The Notebook” ou “Crazy, Stupid, Love” (em que tem muito mais graça que Steve Carell). Mas depois fez “Blue Valentine”, “The Ides of March” e “Drive”. O futuro espera-se brilhante.

 

Drive

Nicolas Winding Refn, 2011

 

Inês Santinhos Gonçalves

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