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O papa e os seus filhos

Isabel Castro

 

A segunda temporada está prometida para este ano e muitos serão, por certo, aqueles que por ela anseiam. Com plausíveis razões: é uma série de ficção histórica bem conseguida e tem como protagonista o quase perfeito Jeremy Irons, que nos habituou a impecáveis prestações cinematográficas no papel de vilão e malfeitor. Em “The Borgias”, obra com a assinatura de Neil Jordan, Irons é um vilão especial: é papa. Antes de o ser, chamava-se apenas Rodrigo Borgia; depois de o Vaticano ter chegado a consenso e o fumo branco ter dado o seu sinal, passou a Alexandre VI. O contestado Alexandre VI.

A história de “The Borgias” reza assim: quando um papa morre há que escolher outro e o nosso vilão favorito (veremos mais tarde que, entre os malfeitores, nenhum deles tem a perspicácia e a rapidez de pensamento de Rodrigo) decide que quer muito suceder a Inocêncio VIII. Por ser de ascendência espanhola, por ser figura nada consensual, a tarefa não se adivinha fácil – mas nada que uma corrupçãozinha ou outra (ou, se preferirmos, uns gestos de recompensa, como mandam os bons costumes), não resolva.

Rodrigo consegue ser escolhido e é Alexandre VI quem toma conta dos nove episódios da primeira temporada. O fumo branco não significou, porém, uma vida pacata: o cardeal Della Rovere (Colm Feore) é um adversário declarado que se tenta aproveitar da situação geopolítica da grande bota (que um dia seria Itália, mas que no século XV se encontrava profundamente dividida) para afastar o papa de São Pedro. Para isso vai ainda a França, país que aspira ao reino de Nápoles.

É em torno de intrigas políticas e disputas de poder que “The Borgias” acontece. Alexandre VI conta com trunfos que outros não terão ao dispor: além da sagacidade, tem uma família fiel que não poupa esforços para ajudar o Santo Padre a manter o seu estatuto.

O facto de Rodrigo Borgia ter uma ampla prole (e não se trata de ficção, assim foi na realidade) é determinante para a construção da narrativa de “The Borgias”. Cesare Borgia (François Arnaud), o primogénito feito cardeal mas de tentações nada católicas, é de todos os descendentes aquele que mais contribui para a segurança do pai; Juan Borgia (David Oakes), feito militar, é um puto imberbe com sede de protagonismo; Lucrezia Borgia (Holliday Grainger) é a encantadora e pura adolescente cujo casamento talvez possa salvar o Vaticano.

São filhos de uma cortesã que Borgia deixa de cortejar a partir do momento em que se torna papa, em nome da coroa e do trono. Mas a verdade é que estamos perante um papa especial: na televisão (e na vida real), Alexandre VI deixou-se encantar pela confissão que ouviu dos lábios de Giulia Farense (Lotte Verbeek), que rapidamente ganhou o estatuto de amante oficial do Santo Padre. Jeremy Irons dá corpo a este chefe do Vaticano incapaz de se alhear dos prazeres terrenos mas não é uma reprodução fiel do autêntico, que além de ter tido uma prole ainda maior se distinguiu pelo nariz excessivamente comprido e pela barriga de grandes dimensões. Alexandre VI sai, assim, favorecido.

Com muito sexo, traição e algum sangue à mistura, “The Borgias” não é, clara e definitivamente, uma série para os que olham para a igreja-edifício como sendo livre de impurezas. Vive-se num mundo muito dado a objectivos extremos, a gente que não olha a meios para chegar aos fins. Vive-se, mata-se e morre-se como quem muda de camisa. Ou de batina.

Bem realizada, a série perde pontos apenas no final, por falhar no tom de credibilidade com que foi habituando o espectador. Mas Jeremy Irons está ali para nos fazer voltar às intrigas e estranhas vidas de um Vaticano que decidia a ordem e a disposição do mundo.

 

Neil Jordan

The Borgias, 2011

 

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