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Voar com Feist

Pedro Galinha

 

A voz de Feist é uma delícia e, há bem pouco tempo, fez-me levantar voo. Ok, isso foi porque serviu de banda sonora ao início da minha última viagem de avião. Mas, ainda assim, mesmo que tivesse os pés bem assentes na terra, era impossível ficar indiferente ao poderio vocal da moça, já trintona. E, uma vez mais, isso fica provado em “Metals”.

Nos quase 50 minutos de duração do álbum mais recente da canadiana, somos embalados como meninos nos seus leitos infantis e, para não acordarmos deste sonho bom, temos igualmente direito a coros celestiais.

Em “How Come You Never Go There”, o primeiro single do disco, isso é flagrante. O mesmo se pode dizer de “Graveyard”, talvez um dos grandes momentos deste registo que junta folk e pop como há muito não se ouvia. Aliás, é a mistura singular que Feist nos dá, através da sua voz e da sua guitarra – seja ela eléctrica ou acústica – que torna o álbum refrescante.

Sem a pretensão de captar públicos de ouvido manso, a cantautora regressa a uma integridade artística perdida, dizem alguns, com canções como “1234”, alinhada em “The Reminder” (2007). Discordando ou não, o que interessa ressalvar neste “Metals”, que sucede ao mais aclamado álbum da sua carreira, é a capacidade de transportar o ouvinte para paisagens que nos convidam à introspecção.

A escrita é cuidada, quase literária, e resulta do regresso de Feist a Toronto, de onde é natural, na ressaca da última digressão. Aí procurou o isolamento, só quebrado quando ruma à Califórnia, um ano e meio depois, para se encontrar com os amigos Mocky e Gonzales que deram uma mãozinha na produção do álbum inaugurado com a enigmática e certeira “The Bad In Each Other” (“When a good man and a good woman/ Can’t find the good in each other/ Then a good man and a good woman/ Will bring out the worst in the other”).

A mestria não fica por aqui. Com “A Commotion” o disco ganha nova forma, sem perder, no entanto, a coesão que o caracteriza. Também há coros – as três meninas a quem Feist entregou a tarefa saem muito bem na fotografia – e as cordas da canadiana chegam-nos com maior intensidade. “The Circle Married the Line” e “Bittersweet Melodies” são gémeas, mas não como as das telenovelas pirosas. Quer isto dizer que não há uma boa e outra má. Ambas são tão angelicais que até dói.

Neste alinhamento, cabe ainda “Anti-Pioneer” que se revela terapêutica para almas cinzentonas e, até ao final, seguem-se “Undiscovered First”, “Cicadas and Gulls” e “Comfort Me”. “Get It Wrong, Get It Right” encerra “Metals” com a certeza de que acabámos de ouvir um conjunto de belas melodias. Não se arrependa, por isso, se escolher algumas destas canções para o despertar nas manhãs. Certamente não haverá melhor forma de acordar do que ao som de Feist que, em Fevereiro, visita Singapura para o único concerto no continente asiático.

Se a sala for boa, a transposição do disco para o registo ao vivo pode proporcionar uma noite perfeita. Algo a que a canadiana, companheira de longa data de Peaches e colaboradora dos Broken Social Scene, já habituou os fãs, especialmente aqueles que a conhecem desde os tempos em que a franja ainda não era moda.

 

Metals

Feist, 2011

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