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Dos Humanos e outros pops

– A propósito de outras sonoridades, a experiência dos Humanos esgotou-se?

Camané – Bem, não é fado. Tive muita dificuldade, ao início, em dizer que sim, que aquilo era um projecto em que íamos cantar António Variações e eu nunca gostei muito dessas coisas dos tributos. Mas, neste caso, não era bem isso, era fazer um disco com inéditos do António Variações que estavam meio escondidos e que ele não teve oportunidade de gravar porque morreu antes. E depois as pessoas com quem fui trabalhar, o Helder Gonçalves, o Nuno Rafael, a Manuela Azevedo, o [David] Fonseca… era tudo gente com quem gosto de trabalhar e com quem me identifico. Pronto, foi um projecto que foi de encontro àquilo que era a música do António Variações, mas era uma coisa nova. Foi uma visão daqueles temas e também o que era para nós o Variações e, se reparar, estava lá o António Variações. Em tudo! E não estávamos a repetir nada do que ele já tinha cantado.

– Teria dado um bom letrista de fado?

C. – Acho que não. O que tinha de engraçado é que a forma dele escrever era muito popular, era simples, era pop, mas era muito directo. Eram aquelas coisas muito directas, muito popular, como se dizia “de Braga a Nova Iorque”… Mas nunca seria um bom letrista de fado porque havia uma simplicidade demasiado directa e que nos fados não funciona muito bem. Porque no fado há uma certa ironia, um contar de história com uma trama ali no meio. O Variações tinha um lado filosófico a escrever. Fazia lembrar de uma forma popular um tipo como o António Aleixo. Umas frases idealistas muito simples…

– E era muito sofrido.

C. – Sim, era também uma forma muito triste. É engraçado, era muito triste… Aliás, toda aquela coisa, ‘adeus que me vou embora’, ele está a contar que vai morrer, e vai ter com os pais.

– E até outras mais delirantes em que há esse lado doloroso.

C. – ‘Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga’, é uma… e ficou na história.

– Outros projectos do género, não tem previsto?

C. – Aquilo teve uma dimensão muito grande e eu até achava que ia prejudicar a minha cena que é o fado. Também não tenho fisicamente aquela postura de dançar. Aliás, eu era aquele gajo que estava sempre ali muito paradinho a cantar. Lembro-me de estar a cantar a “Maria Albertina” no festival do Sudoeste para 60 mil pessoas, tudo aos pulos, tudo a dançar, e eu ali parecia que estava a cantar fado, de mãos nos bolsos.

– Mas estava desconfortável?

C. – Não, não estava porque assumi a minha posição e a minha maneira de ser. Aceitei aquilo em mim, não é? Uma vez fiz um espectáculo que era o “Outras Canções”, sete noites no [Teatro] São Luiz, com orquestra sinfónica e cantei alguns temas de outros cantores de que gosto muito. Sei lá, do [Jacques] Brel, de toda a gente, uns cantores espanhóis, brasileiros, e também tive essa dificuldade com os ritmos. Mas esse foi mais fácil! Mas houve um que fiz, numa sala mais pequena, em que cantei alguns compositores portugueses de rock, Xutos… e aí foi mais complicado. Em 99, cantei o “Circo de Feras”, no disco do Xutos, há pouco cantei “O Homem do Leme”, também saiu em disco… Mas canto sempre no meu registo, nunca estou ali a inventar nada.

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