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“Fazes sucesso lá fora, vens cá para dentro e és o maior”

– É inevitável falarmos da classificação do fado pela UNESCO. Antes de mais, o fado de Coimbra ficou de fora porquê?

Camané – O fado de Coimbra não é fado. O fado de Coimbra é canção de Coimbra.

– Vá lá a Coimbra dizer isso…

C. – Não, é verdade. Não ficam nada chateados. Eu já cantei fado de Coimbra com cantores de Coimbra. O fado de Coimbra é canção de Coimbra. O fado de Lisboa é fado. São diferentes. São canções com histórias diferentes, com percursos diferentes, com atitudes diferentes, com tocar e cantar diferentes. Tudo é diferente. O fado de Coimbra também é uma música e também merecia ser património imaterial, mas como fado de Coimbra. Porque tem uma história tão forte e tão grande. Mas também tem a ver com o contexto… Como a música popular portuguesa… Todas essas músicas têm o seu lugar na história.

– E, por isso mesmo, era preciso a UNESCO vir validar o fado? Houve um reconhecimento como se o fado não tivesse esse lugar de que fala.

C. –Sim, não precisava, mas ajuda. Se formos a ver, o tango…

– Não falei do tango, ou de outra música qualquer porque estamos a falar de fado…

C. – E o samba… O samba era considerado pelos brasileiros como uma música de segunda. Foi preciso aquela cantora [Carmen Miranda] ir para os Estados Unidos fazer filmes para começarem a gostar de samba. Isto é como o efeito Mourinho. Fazes sucesso lá fora, vens cá para dentro e és o maior. O fado foi para a UNESCO e já é muito bom! A Amália teve sucesso lá fora e já é muito bom! Não quer dizer que não seja, mas estou-me a referir ao efeito. O efeito Mourinho! Como com o tango… Veio o Gardel…

– Mas esta institucionalização não retira esse carácter mais canalha, menos domesticado, esse ambiente mais vadio para tornar o fado mais próprio de um museu?

C. – Não… a verdade… a verdade demora muito tempo. As coisas são o que são. É evidente que existem fados canalhas muito bem escritos. Até isso há. Mas a verdade vem sempre ao de cima (silêncio).

– Não se precisava da UNESCO para nada?

C. – Eu acho que se precisava.

– Para quê?

C. – Tudo o que vier é bom. É pior quando as coisas acontecem no meio de uma mentira. Quando as coisas são verdadeiras, quando encontram uma forma verdadeira de elevar esta música, isso é bom. Poderia ser muito pior.

– Porque já há quem comece a dizer que a partir de agora é preciso mais responsabilidade…

C. – Ah, isso não. Isso do fado… (acende cigarro). Vai acontecer sempre gente a fazer coisas boas e menos boas mas não se pode rotular, não se pode dizer nada disso.

– Mas há uma aristocracia no fado que ficou encantada com esta classificação da UNESCO.

C. – Sim, mas agora não temos de … eu até fico contente que venha gente de fora para o fado.

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