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Nas paredes de Jack

Isabel Castro

 

Neste Quarto vive Jack e vive a Mamã. Mais ninguém, só os dois. Neste quarto há a Caixa de Jogos, a Prateleira, a Cadeira de Baloiço. Também há o Candeeiro. Uma casa de banho, um frigorífico, a Cama. E o Guarda-Fatos onde Jack dorme todas as noites, até ser levado pela Mamã para junto dela. Objectos escritos com maiúscula porque são únicos no mundo.

O mundo é o Quarto. Jack tem cinco anos e um planeta de 11 metros quadrados, com uma Clarabóia por onde espreita a Lua, não sempre, como se fosse o rosto de Deus. Há também uma televisão que, além de desenhos animados, mostra imagens de outros planetas. E um homem a quem Jack chama Nick Mafarrico que todas as noites visita o Quarto. Jack não o vê – a mãe não deixa – porque está a dormir no Guarda-Fatos. Ou a fingir que dorme.

Finalista do Man Booker Prize em 2010, nome na lista dos dez melhores do New York Times e do Washington Post, “O Quarto de Jack”, de Emma Donoghue, é romance que fica por ser impossível a indiferença. Narrado por Jack, que dá início ao seu monólogo no dia que completa cinco anos, o livro testa o leitor ao conduzi-lo para uma esfera que a poucos será familiar: a da reclusão tão total que impede o conhecimento mais básico, o conhecimento do modo como se organiza o mundo. Jack desconhece como se descem e sobem escadas, porque nunca pisou nenhumas.

O nosso pequeno narrador nasceu no Tapete, sendo o resultado das sucessivas violações a que a mãe foi (e continua a ser) sujeita pelo homem que os detém em cativeiro. Mas Jack desconhece os estranhos desígnios da humanidade desumana: no Quarto só vive a Mamã, que o protege de Nick Mafarrico. Não há mal que lhe faça mal.

A Mamã desta história é uma mãe que se agarra a um filho indesejado como se outro desejo não tivesse. Talvez vítima da síndroma de Estocolmo, acalma a ânsia de fuga com a necessidade de garantir que nada falta a Jack. E oferece ao filho um mundo alternativo: o miúdo sabe tudo, sabe ler e escrever, brinca e faz exercício físico, mantém-se saudável. Só não sabe que existe um mundo Lá Fora. Até ao dia em que ela, a Mamã, lhe conta a verdade.

“Lá fora há tudo. Agora, quando penso em qualquer coisa como esquis ou fogos de artifício ou ilhas ou elevadores ou ioiôs, tenho sempre de me lembrar que são verdadeiros, estão mesmo a acontecer no Espaço Lá Fora todos ao mesmo tempo. Fico com a cabeça cansada.” (pág. 79), diz-nos Jack. Mas há mais: “E as pessoas também: bombeiros professores ladrões bebés santos jogadores de futebol e de todos os tipos, existem mesmo no Espaço Lá Fora. No entanto, eu não estou lá, nem a Mamã, somos os únicos que não estamos Lá Fora. Será que ainda somos reais?”.

São, neste livro são reais. E Jack irá descobrir a extensão da realidade. Mas é uma realidade que ultrapassa a imaginação – não é difícil lembrarmo-nos dos casos que terão dado a Donoghue o ponto de partida para esta estranha clausura em forma de livro, que nos aprisiona, página após página, num quarto com 11 metros quadrados, um Tapete, um Guarda-Fatos, um miúdo a quem não conhecemos a cara e a uma mãe, presumimos jovem, num desespero compassivo.

Para ler de um só fôlego, “O Quarto de Jack” é mais do que a narrativa de um pesadelo: é uma história de sobrevivência, de descoberta, da infinita capacidade do ser humano se adaptar ao que não sonhava existir. É um romance sobre relações e reacções. Isto tudo pelos olhos de uma criança de cinco anos a quem o mundo foi vedado. E é ainda um convite ao regresso à infância, aos tempos em que a novidade nos sabe bem e, mesmo com cócegas na barriga, não temos medo de nos atirar para além do infinito das coisas às quais sabemos o nome.

 

O Quarto de Jack

Emma Donoghue, 2011 (edição portuguesa)

 

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