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O império do vivo

Inês Santinhos Gonçalves

 

Vermelho, claro. Não havia outra cor possível. O vermelho do Almirante Lacerda vem de dentro. Pensar que é do tijolo exterior é simplificar a natureza do espaço. O vermelho é sangue que circula por este órgão vivo que habita na cidade.

São três os espaços vitais deste mercado que se quer vermelho como todas as emoções fortes da vida. O que é seco tem cores de terra e cheiro pungente mas difícil de definir. São peixinhos e passarinhos e vegetaizinhos engarrafados. Pastas gelatinosas e densas em caixas que combinam com leves e ocos interiores marinhos.

Ao lado, os tradicionais vegetais descansam os estômagos mais sensíveis, mas estão ali apenas para enganar. Porque a curva seguinte inicia a verdadeira montanha-russa dos sentidos que o mercado esconde. O cheiro das conservas é substituído pelo cheiro quente do sangue. Sim, sangue. E para quem está familiarizado, um odor a capoeira e um murmurinho galináceo.

Primeiro passei distraída pelas bancadas onde homens e mulheres arranjavam frangos. Uma pena ou outra esvoaçava das gaiolas que em torno das bancadas guardam os animais vivos – mas, afinal, podiam estar assim mesmo à venda, para quem tenha interesse numa cabidela feita em casa. No entanto, no fim do corredor, dou um, dois, três passos para trás. Um cacarejar mais aflitivo dá o alarme. Sai a galinha da gaiola e, sem apelo nem agravo, tem o pescoço torcido. Isto vejo eu, ali especada, mantendo a compostura. No ritual, na rapidez, na naturalidade dos gestos reconhece-se uma certa dignidade. É o ciclo da vida – mas esperemos que as companheiras de espécie não o saibam, porque um alguidar cheio de sangue no chão pode ser lírico, para quem vê nele a seiva da vida, mas não para quem se apercebe da proximidade do fim.

E quando pensamos que as considerações poéticas chegaram ao fim, é subir o degrau que leva ao centro de tudo. O quente passa a frio mas não menos sangrento. Senhoras de minap fazem uma exigência: queremos o peixe morto mais vivo de Macau. Impossível? Jamais. Há de todas as cores, tamanhos e feitios, todos com uma característica comum: respiram. É ver as guelras a abrir e a fechar à procura de vida, o marisco a contorcer-se e as tais senhoras a pedir confirmação, a mexer, a ter certeza que ali ainda bate um coração.

Um orgulhoso vendedor passa a mão num molho de navalheiras, apertadas como um ramo de salsa, e é vê-las arrebitar. Sorri-me. Eu lanço um sorriso profundamente irónico às navalheiras – a evolução das espécies é uma coisa lixada.

Candeeiros vermelhos dão um toque sofisticado àquilo que é uma molhada de escamas, espinhas e entranhas. Lançam luz sobre as postas dos espécimes que não cabem em caixas de esferovite com três dedos de água. Estão ali em pedaços, não há dúvida que viram a luz do paraíso (os peixes decerto que vão para o céu), e no entanto, a carne ainda pulsa, o sangue ainda fervilha e quase não nos surpreenderia se mexesse.

Saímos do Mercado Vermelho, directos para a luz da cidade que se move, como quem abandona o ventre da mãe. Havia carne, músculo, sangue e um insuperável sentido de vida. Dali estamos prontos para o mundo.

 

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