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“O Marceneiro é que foi, realmente, o pai disto tudo”

– Que significa, exactamente, a renovação do fado? É só por serem novos os que cantam?

Camané – Sim. Existem músicos muito bons no fado. A renovação faz-se com essas pessoas novas que vêm para o fado. Mas sempre houve isso. Se calhar, o que aconteceu agora foi que vieram para o fado pessoas de outros meios. Decidiram cantar fado. Isso é muito engraçado. Tenho um amigo que se licenciou em Direito e trocou tudo para ser guitarrista e é um excelente guitarrista. Antes não era assim. Hoje, o fado e a música garantem meios de subsistência e dão pernas para andar.

– Porque agora também há uma indústria cultural em volta do fado.

C. – Sim. Sempre houve de alguma forma só que estava muito em volta da casa de fado, das pessoas que viveram uma vida inteira do fado. Hoje a dimensão é outra. Houve os casos de Amália ou do Carlos do Carmo, da Hermínia, mas agora há em mais quantidade.

– Mas há cada vez menos casas de fado.

C. – Ah, isso não é verdade! Agora nascem como cogumelos. Existem umas que fecharam porque eram casas históricas por onde passaram os melhores fadistas, sim. Mas existem outras que, muitas delas, são tascas onde a malta nova vai ouvir fado. E é uma coisa que há cada vez mais. E está-se a tornar um culto porque não podem ir jantar a casas mais prestigiadas e, então, aparecem essas casas onde as pessoas mais novas vão tocar, vão cantar.

– A figura de Amália já foi bailada, dramatizada, musicada… mas porque é que ninguém toca na figura do Alfredo Marceneiro?

C. – O Marceneiro foi quem começou isto tudo porque ele foi quem fez aquelas grandes músicas. O fado bailado que a Amália canta a “Estranha Forma de Vida”, a marcha do marceneiro que a Amália canta “A Festa da Mouraria”, fez o fado cravo, fez uma série de fados. O Marceneiro é, de facto, um caso à parte e acho que, aos poucos, as pessoas vão perceber isso. Só que era um homem! E era um homem diferente, uma pessoa mais fechada em si própria e não era um homem de palco. Tinha que ver com aquela época também! O meu bisavô também cantava mas tinha uma profissão. O Marceneiro até muito tarde era marceneiro. E o meu bisavô até muito tarde era mestre-de-obras no Alfeite e cantavam ao fim-de-semana. É diferente. A Amália transformou tudo. A Amália tem esta importância porque conseguiu dar uma importância a isto tudo. Era a geração do Carlos Ramos, Amália, Hermínia, Argentina Santos. Mas o Marceneiro é que foi realmente o pai disto tudo. Recriou os fados. A função dele foi tão importante quanto a da Amália. A Amália não é que fosse diva mas…. tinha uma voz. O Marceneiro a cantar tinha uma musicalidade fora do normal. A partir da base que era a do fado, na altura, foi alargando-a por causa das necessidades de se adaptar os fados a essas letras dos poetas que escreveram para ele, o Linhares Barbosa, o Henrique Rego, uma série de poetas. Foi passando das sextilhas para os decassílabos, foi criando ambientes musicais… Mas o Marceneiro foi a época. O Marceneiro é um tipo de coisas que as pessoas vão ter de descobrir quando quiserem olhar para o fado de forma mais abrangente. E falo do público. O Marceneiro não chegou tanto ao público, ao povo.

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