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“O meu fado é a minha forma de estar”

Camané, fadista, entre Lisboa e a pré-nomeação a um Óscar de Hollywood.

 

Carlos Picassinos

 

E de repente, mesmo a terminar o ano, a notícia de que a canção “Já não estar”, do documentário “José e Pilar”, estava entre as canções pré-seleccionadas para o Óscar da Melhor Canção Original atribuído pela Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood. A música é de José Mário Branco, a letra de Manuela de Freitas, e o intérprete Camané, apanhado de surpresa poucos dias depois desta entrevista ao PARÁGRAFO. Ficou satisfeito com a nomeação, ele que ainda no princípio do mês esteve em Nova Iorque para um concerto e cuja “crítica honesta” do New York Times serviu de arranque a esta conversa sobre o momento do fado, os novos intérpretes, os grandes e os esquecidos, os seus poetas, a incontornável classificação da canção de Lisboa como património imaterial da UNESCO. E, sim, falou da aventura dos Humanos, de “Maria Albertina”, das 60 mil pessoas aos pulos no festival do Sudoeste e ele “ali de mãos nos bolsos”, e da estética pop de António Variações, “de Braga a Nova Iorque”. Camané, o menino de ouro.

– Acabou de chegar de Nova Iorque onde deu um concerto em Brooklin. A crítica do New York Times menciona que o concerto foi tradicionalista e menos dado a experimentalismos. Foi uma opção sua para que as pessoas se identifiquem com um repertório mais convencional?

Camané – Existe dentro do meu tradicionalismo uma grande dose de experimentalismo. Sou um fadista chamado puro, não é? Quando falam de tradicionalismo é porque é em comparação com uma série de coisas que se fazem. Para mim, tradicionalista não significa nada, mas quem vê de fora tem essa necessidade de dar um nome, um rótulo. Mas acho que, sem ser uma crítica de grande fôlego, essa crítica fala de mim de uma forma honesta. A forma, como ele disse, é que há uma determinada contenção e que houve uma certa verdade no que aconteceu. É claro que o que eu faço é fado sem ter essa preocupação do tradicionalista.

– Não escolhe repertório conforme os públicos, as digressões?

C. – Não, não, faço o que me é natural.

– Mas a sua sonoridade sempre escapou um pouco ao cânone, sempre assumiu alguma coisa de experimentalismo.

C. – Sim, tive sempre esse lado embora isto tudo de dentro para fora e nunca ao contrário, porque há características que são do fado. É o mesmo que se eu for tocar flamenco, ou tango, se não respeitarmos essas formas e esse ambiente não é fado, é outra coisa qualquer. Mas como o fado está na moda as pessoas tentam de todas as formas lá chegar.

– Mas isso é estratégia comercial…

C. – Eu, por acaso, como nunca precisei de me enganar a mim mesmo, porque o que tenho é um dom… O meu bisavô cantava fado, o meu avô cantava, eu comecei muito novo… Eu não sou assim. Quando comecei a cantar fado toda a gente detestava fado.

– Ainda estava muito conotado…

C. – A minha geração, então, logo a seguir ao 25 de Abril [de 1974, revolução dos Cravos] levou com aquilo tudo. Nos anos 90 era complicadíssimo ir apresentar um disco num programa de televisão. Quando me faziam uma entrevista não era uma entrevista, era um interrogatório! Isto é verdade! Agora é normal que muita gente que não é do fado, que se apercebeu que o fado funciona melhor lá fora, o veja como um trampolim. Não digo isto com nomes. Por exemplo, adoro os Deolinda, mas os Deolinda não dizem que são fado. Têm uma música própria, mas não dizem que são fado. Não têm essa pretensão. Agora, existe muita gente em que uns tentam inovar por inovar. O fado por si só é genial. O fado consegue incorporar tudo.

– E o que distingue o seu fado?

C. – O meu fado é a minha forma de estar. Tem a minha personalidade, os meus poetas, os letristas e músicos que fui buscar, que não eram do fado e que consegui integrar na minha música. O caso do Sérgio Godinho, do Zé Mário Branco, da Amélia Muge, de toda a gente que tem escrito… Desde os inéditos da Alain Oulman… dos fados tradicionais. Também os poetas clássicos que consegui integrar no fado tradicional. Mas cantar fado tradicional não é fácil. Muito deles não têm refrão. Por isso, é preciso encontrar um trabalho interpretativo muito forte para chegar lá. Isso é que é a beleza do fado, a magia, o mistério do fado. E isso só os fadistas é que têm, conseguirem apoderar-se de uma letra e de um poema e cantar aquilo de forma natural. Conjugar essa verdade toda e sem grandes exibicionismos…

– Que nomes são as suas referências?

C. – Tenho muitos. Ao longo da história do fado tenho vários nomes. Pessoas que trabalharam comigo e têm uma importância incrível no meu trabalho, que me ajudaram a perceber aquilo que tinha porque sozinho não era capaz. Não só a nível das músicas, dos fados, mas…

– José Mário Branco…

C. – O Zé Mário, por exemplo. Foi uma das pessoas que mais me ensinaram a perceber isso em mim, a definir o meu caminho.

– O que não deixa de ser curioso vindo ele da área que vem…

C. – Aliás, ele vem de uma área completamente diferente e aprendeu a gostar de fado comigo, com o Carlos do Carmo, depois começou a gostar do Marceneiro e a gostar de uma forma muito mais honesta do que era suposto de uma pessoa vinda daquele meio. Ajudou-me, artisticamente, na produção dos discos e tudo isso… Eu não seria o mesmo se não fosse o Zé Mário.

– Há gente nova a escrever para fado?

C. – Tenho trabalhado muito com a Manuela de Freitas mas existem outras pessoas novas que eu gosto. Já cantei alguns temas da Aldina Duarte… Existem algumas, não muitas, mas penso que também nesse aspecto as coisas vão mudando. Como disse antes, quando comecei era extremamente difícil. As pessoas tinham um preconceito enorme. Lembro-me que uma malta nova de jornalistas, naquela altura, se começou a interessar pelo meu trabalho. Isto a partir de 94, comecei a aparecer num meio que não era o meu. Havia aquelas pessoas já reconhecidas, o Carlos do Carmo, a Amália. Para mim, foi complicadíssimo. Depois ganhei o prémio Blitz, que era um jornal de rock, e nesse sentido, quando houve gente nova que gostou do que eu fazia, é que as coisas se tornaram mais fáceis. Depois, quando a Amália morreu, a partir do ano 2000, houve outro boom do fado em que apareceram as mulheres a cantar. Mas naquela altura comigo só havia a Mísia, o Paulo Bragança e o Zé da Câmara.

– A Mísia e o Paulo Bragança com um fado e uma presença muito heterodoxos. Eram vistos como figuras exteriores ao cânone.

C. – Sim, mas mais a nível visual. São visões diferentes do fado mas eram pessoas que cantavam os fados tradicionais, e que abordavam muito fado tradicional. Cantavam margaridas, cantavam fado menor… eles sempre cantaram fado.

– Mas eram mal vistos.

C. – Mas ninguém pode dizer que não são do fado…

– Mal vistos pelos guardiões do templo.

C. – Sim, mas esses também são muito duvidosos. Eu costumo dizer sempre que estou cá é para os chatear. (risos)

– Mas, ainda assim, o Camané é o menino de ouro desta nova geração. Sente-me bem nesse papel?

C. – Nova que já não é tão nova. As pessoas nunca percebem muito bem o que nós fazemos. Nunca conseguem perceber. É um bocadinho solitário e temos de viver com isso. Essa solidão faz parte do meu trabalho e faz parte dos artistas.

– Como é o seu processo de trabalho?

C. – É interiorizar primeiro a letra. Depois ver se aquela letra tem um ambiente mais triste, ou não, e depois fazer parecer que aquelas palavras pertenceram ali a vida toda. Isso é o resultado final, o que tem de parecer. Mas são dias e dias a pensar naquilo, às vezes nem canto. É na minha cabeça que funciona. Encontrar um registo emocional. Perceber aquilo. Aqui há uns dias, estava com um fado tradicional do Oulman que era sobre uma criança de 14 anos que se apaixonava. E eu não ia cantar aquilo como se fosse uma coisa do outro mundo! Tinha de transmitir aquilo como se fosse a criança. Tem de ser contada a coisa com uma verdade, tal e qual aquilo como está escrito, e fazer daquilo minhas palavras para que as coisas pareçam simples. Simplificar, simplificar. É preciso encontrar essa essência dessa canção.

– Encontra um lado trágico no fado?

C. – Temos sair de nós próprios. Porque se quando estou a cantar não deixar sair as coisas que são eu próprio, os meus egos, os meus defeitos, as minhas paranóias, se isso lá estiver, tudo passa e começaria a entrar numa exibição total. Por isso, tenho de sair de mim. E é isso que faz com que as coisas toquem as pessoas e seja uma coisa mágica. Isso é fundamental em qualquer actor, cantor, artista. Aquilo que ele é na realidade tem de ser esvaziado. Tem de haver uma identificação própria também com os sentimentos do fado. Muitas vezes nem é com a letra mas com o sentimento. Mas temos de sair de nós próprios. Nunca consegui dar tanto às pessoas senão quando me liberto de mim próprio, coisa que às vezes não consigo na minha vida. No dia-a-dia, não consigo ir tão longe.

– Só em palco.

C. – Sim, porque só aos poucos me vou libertando.

– E consegue perante aquela gente toda a olhar?

C. – Sim, sim, por isso, porque me vou libertando de mim. O medo tem que ver com o facto de estarmos fechados em nós próprios. Quando deixamos e começamos a olhar para o que estamos a fazer, o medo desaparece e aí as coisas começam a fluir. Há também aquelas pessoas que dizem, ‘ah cantar é um prazer!’. Não é prazer nenhum, cantar pode ser um prazer mas eu não sei fazer mais nada. Tenho mesmo de cantar porque é uma necessidade e não consigo conceber a minha vida sem isso. Mas não é só prazer. É tudo. Às vezes, existe esse prazer mas há outras vezes que não. O prazer só vem da libertação total. Mas não pode ser só alegria (sorriso).

– Lê poesia, ouve música…

C. – Ouço Chet Baker, Sinatra, Aznavour, os brasileiros, Chico, Vinicius, toda a gente do fado, rock, sei lá, ouço muita música. Ando a ouvir B Fachada que é um compositor novo e que gosto imenso…

– Contou que quando lhe fizeram uma entrevista, no início dos anos 90, aquilo parecia um interrogatório. Mas acha que isso é porque ainda conotavam o fado com um sentimento identitário, patriótico, antigo regime?

C. – Não, não era bem nesse sentido. Era num sentido preconceituoso. Eu dizia: ‘o fado é uma música brilhante, tem umas capacidades melódicas incríveis, consegue-se inventar e criar, dentro daquele chão musical que parece simples, fazem-se coisas incríveis, linhas melódicas incríveis. Os melhores intérpretes da música portuguesa depois dos anos 50 são todos do fado’. E ele diziam: ‘isso não é verdade’, ou seja, contestavam aquilo que eu estava a dizer…

– Mas era por preconceito…

C. – Sim, para eles o fado era uma música menor e eu sempre acreditei que não era. Foi assim durante muitos anos. Não só a seguir ao 25 de Abril. Foi antes do 25 de Abril, foi depois. Toda a gente dizia que Salazar não gostava de fado, mas depois a Amália foi tão forte que ele foi obrigado a gostar de fado. O fado, realmente, obriga à reflexão, aos sentimentos, faz pensar. Se olharmos para o repertório que ela estava a cantar, poemas do Pessoa, do O’Neill, do Mourão Ferreira. Quando se começa a cantar faz-se as pessoas pensar, está-se a tratar este povo de maneira bastante evoluída, a ideia é essa! E isso para o fascismo era um bocado assustador. Claro que a música era toda censurada na rádio. Não se escolhiam os fados de qualidade, bem escritos… eram sempre aquelas musiquinhas. Toda a música de qualidade nos obriga a pensar. E não é preciso ser música de intervenção.

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