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Piratas do barroco

O quarteto de música barroca Red Priest está em Macau para um espectáculo que se quer com contornos rock. No século XVIII, dizem, a música não era bem comportada. E não há motivos para que a irreverência não seja recuperada.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Um cravo, um violoncelo, um violino e uma flauta de bisel interpretam obras de Bach, Vivaldi ou Corelli. Mas na mão de David Wright, Angela East, David Greenberg e Piers Adams o barroco ganha uma nova vida: o quarteto dramatiza as obras e dá-lhes arranjos rock, sempre com sentido de humor. Amanhã vão estar no Centro Cultural de Macau para o primeiro concerto no território.

A abordagem dos Red Priest – nome inspirado na alcunha de Vivaldi – é radicalmente diferente daquela a que o público se habituou no que toca à música erudita. Os músicos pulam pelo palco, e violoncelo e violino tocam à desgarrada. A ideia, explica David Wright, é “trazer a música barroca de volta à vida”. Por cá, os Red Priest vão apresentar o seu mais recente trabalho, “Pirates of the Baroque”, um espectáculo com 11 temas, que incluem obras de Bach, Telemann, Vivaldi e Corelli. A pirataria e o mar são os temas que ligam as peças: os piratas dos mares confundem-se com os piratas da música, muito comuns no século XVIII, conta Piers Adams. “Não há exactamente uma história que atravesse o espectáculo todo, mas tentamos ligar todas estas ideias através das músicas”, acrescenta.

“Queremos voltar à ideia original do barroco. Na altura era um movimento estrondosamente expressivo”, diz Wright. “Hoje em dia olhamos para esta época como sendo sagrada, séria, mas isso é simplesmente porque tudo o que temos são pautas, não sabemos como eles tocavam”, continua o intérprete.

O grupo dedicou-se a alguma investigação sobre a vida dos autores das obras que interpreta e fala de “pessoas muito dramáticas e expressivas”: “Por exemplo, Handel viu-se envolvido numa luta de espadas durante uma ópera e quase morreu”.

Os Red Priest estabelecem um paralelo entre a intensidade dos músicos do barroco, na sua época, e “por exemplo, a cultura do rap gangster, com as pessoas a trocarem tiros por causa da música”. “A única diferença é que usavam grandes perucas e collants”, aponta Wright.

“A única razão porque as pessoas pensam que a música barroca é séria é porque toda a gente a toca dessa forma. Mas ela é muito mais dramática que isso, por vezes é até grotesca”, refere Angela East.

O grupo tenta quebrar a relação de distanciamento que existe entre o público e os intérpretes nos concertos de música barroca. “No século XIX uma cortina enorme passou a separar a audiência e os músicos, e desenvolveu-se um certo medo mútuo”, conta. Mas nem sempre foi assim: “No século XVIII era tudo muito casual, não havia esta cultura de sentar e ouvir. As pessoas moviam-se de um lado para o outro, bebiam, faziam vários outros tipos de coisas, como num concerto de Foo Fighters. A forma como o público se comportava na ópera no século XVIII era muito rock and roll”.

A reacção do público – os Red Priest já tocaram em Hong Kong, Moscovo, Schwetzingen, Praga, Japão, Austrália, Estados Unidos e em quase todos os países europeus – tem sido positiva, mas há sempre excepções. “Demos recentemente um concerto para um público muito conservador e erudito, consistido em grande parte pelos nossos rivais. Começámos com uma peça de Handel e no fim pusemos uns acordes de jazz. Nessa altura algumas pessoas saíram da sala”, conta Wright entre gargalhadas. A maioria, no entanto, adorou.

O quarteto não sabe bem o que esperar do público de Macau. A experiência mostrou-lhes que “cada país tem uma tradição diferente em relação a ouvir música”. Há cerca de seis meses actuaram em Taiwan, perante uma audiência de duas mil crianças. A reacção surpreendeu os britânicos: “Minutos antes de entrarmos no palco parecia que não estava ninguém na sala. Se fosse no Reino Unido íamos, com certeza, saber que ali estavam duas mil crianças. Eram todos tão bem comportados, foi extraordinário”, lembrou o intérprete de cravo.

O grupo privilegia esse contacto com os mais novos e é por isso que amanhã vai receber alunos de escolas locais. As crianças vão ter a oportunidade de aprender sobre música barroca e interagir com os músicos.

“Pirates of the Baroque” sobre ao palco amanhã, pelas 20h, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Macau. Os bilhetes custam 140 patacas.

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