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Também tu, Brutus

Não, “The Ides of March” não é um filme sobre Roma, César e Brutus. O nome escolhido remete para uma das mais célebres traições da história, mas este Judas – ou estes Judas – são actuais, decidem os rumos da política de um país que, por seu turno, frequentes vezes manda no mundo. Este Brutus – ou estes Brutus – não usam punhais para matarem os inimigos. O mundo evoluiu e a arte da malvadez também.

Realizado por George Clooney (que figura também entre as personagens principais), “The Ides of March” tem como ponto de partida e contexto a disputa entre dois candidatos do Partido Democrata às presidenciais. No entanto, e ao contrário de outros filmes do género, a narrativa não está centrada na luta eleitoral e nos seus protagonistas, mas sim em apenas um dos lados da barricada: a campanha de Mike Morris (Clooney), governador da Pensilvânia.

Morris é o candidato cheio de charme, casado com uma discreta aspirante a primeira-dama, pai de uma jovem filha, que as câmaras apanham uma única vez (e ao longe). Mike Morris não quer os Estados Unidos da América com a cabeça enfiada na areia (leia-se Médio Oriente) e defende novas e verdes tecnologias para o país que, proclama perante entusiastas audiências, deve voltar a liderar o mundo.

A campanha de Morris é pensada por Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), homem experiente nesta coisa de fazer as eleições dos outros e que não admite outro resultado que não a vitória. Do outro lado da barricada, a pensar a campanha do adversário de Mike Morris, está também uma velha raposa dos bastidores da política norte-americana (e mais um grande actor): Tom Duffy (Paul Giamatti) acabará por ter um papel decisivo na forma como o gabinete de campanha do adversário se vai alterar.

Zara tem um braço direito: Stephen Meyers (Ryan Gosling) é o miúdo de 30 anos que parece acreditar na integridade como valor máximo. Leal, activo, inteligente, cheio de ideias e de boas intenções, tem em Mike Morris um ídolo e um amigo. Quer contribuir para que o candidato chegue à Casa Branca, assegurando também um lugar no centro deste mundo. A política (os meandros da política) é aquilo que sempre quis fazer e aquilo a que dedica a vida. Hábil a controlar a imprensa (neste filme também há uma jornalista chata), parece ser o homem com que todos os candidatos sonham.

Acontece que Meyers, o verdadeiro protagonista de “The Ides of March” (não terá sido por acaso que abre e fecha o filme), ganha inadvertidamente um lugar num pesadelo alheio. Comete ainda um erro, pequenino mas fatal. E assim se transforma no maior pesadelo de Paul Zara e de Mike Morris. É ele Brutus ou a metáfora assenta melhor na pele dos outros? Brutus é aquele que atraiçoa primeiro ou aquele que atraiçoa no fim, atraiçoando melhor?

A atestar que George Clooney fez bem em apostar na realização, “The Ides of March” foge à tendência de Hollywood em dividir o mundo em duas partes: bons de um lado, maus do outro. Não deixa, porém, de ser um filme sobre valores, sobre o que deve ou não ser feito. Mas é sobretudo uma abordagem à vida, tal qual ela é: todos temos fraquezas, todos temos aspirações, são poucos aqueles que, na realidade, são mesmo quem parecem ser. É um filme sobre pessoas, sobre a sobrevivência. Afinal, não há gente perfeita – e os que cometem pequenos erros são os que pagam a maior factura. Por enquanto.

 

The Ides of March

George Clooney, 2011

 

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