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O passado é tramado

A memória tem destas coisas: arquivamos o que não nos apetece recordar, endeusamos momentos importantes mas também engrandecemos histórias fúteis que nos ajudam a sobreviver na condição de seres melhores, mais dignos de reconhecimento. A memória, quando viva e de saúde, não passa de uma reconstrução do que vivemos com um filtro que nos ajuda a suportar o presente. Quem nunca se viu mais bonito e gentil do que na realidade foi, que atire a primeira pedra. E a segunda.

Julian Barnes escreve muito sobre estas coisas da memória, sobre as habilidades mentais que nos fazem olhar para o passado quer com excessiva ternura, quer com tristeza em demasia. E escreve também sobre isto de não ser possível parar o relógio em contagem decrescente, facto irrefutável que faz com que os nossos subterfúgios mentais também se alterem. “Parece-me que pode ser esta uma das diferenças entre a juventude e a idade: quando somos jovens, inventamos futuros diferentes para nós; quando somos velhos, inventamos passados diferentes para os outros.” (pág. 86).

“O Sentido do Fim”, romance que valeu a Barnes o Man Booker Prize 2011, é, num primeiro tempo, um livro sobre o passado. Tony Webster, que nos conduz pela história narrando-a na primeira pessoa, recua aos tempos de liceu. Não porque lhe dê particular prazer, esclarece, mas porque é necessário para percebermos o que vem, a um segundo tempo.

Nesses tempos de escola e de poucas preocupações além da virgindade e da cultura literária (viviam-se os anos sessenta), o quotidiano de Webster é partilhado com dois amigos. A dada altura, junta-se um terceiro: Adrian Finn é um rapaz de inteligência diferente, mais evoluído na forma de estar, o verdadeiro filósofo do grupo. É enigmático.

Finn vai para Cambridge quando chega o tempo da universidade. Webster ruma a Bristol, com a promessa de que manterão a correspondência em dia. É já em Bristol que o narrador conhece Veronica, a miúda que lhe ocupa os tempos livres mas que não cede à mais íntima aproximação física. “Mas entretanto Colin e Alex tinham conseguido arranjar namoradas sem política de zona exclusiva – ou pelo menos, era o que certas alusões sugeriam. Mas também ninguém falava verdade sobre sexo. E nesse aspecto nada mudou.” (pág. 30), diz-nos Webster.

A relação com Veronica conhece estranhos desenvolvimentos e não tem um fim feliz. Mais estranho e infeliz é o que se segue, e que nos abstemos de contar. Mas podemos avisar já que, findo o primeiro tempo deste livro, temos a vida do narrador toda ela contada. E Julian Barnes não nos deu pistas para percebermos o que virá a seguir.

O que se segue é uma carta que obriga Webster a recuar ao passado, para descobrir um novo passado. Agora com outros detalhes e outros olhos. Regressa Veronica e regressa Adrian, Colin e Alex há muito que deixaram a história, Webster encontra uma nova versão dele mesmo: “Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos da nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios.” (pág. 100). O passado é tramado, o presente não fica atrás.

Escrito com mestria, com uma extraordinária capacidade de síntese e livre de artifícios, “O Sentido do Fim” não precisaria do Booker para ser um grande livro. O prémio ajudou à escolha na estante da livraria e ainda bem que assim foi: Barnes estimula-nos os sentidos e obriga-nos a pensar na história que contamos da nossa vida. E esse é o mérito da literatura: as histórias dos outros obrigam-nos a olhar para a nossa. Para a que queremos contar e para a que preferimos deixar na memória que só a nós pertence, onde alma alheia não entra.

Isabel Castro

 

O Sentido do Fim,

Julian Barnes, 2011

 

 

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