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Duanbais há muitos

Duanbai é o pior adolescente que se pode imaginar. Vai ser um adulto terrível: aos 14 anos já não há grande volta a dar, o que não se aprendeu e o modo como se cresceu ficaram para trás e não há maneira de passarmos uma rasteira ao tempo. Este jovem, com um rosto amargo que imaginamos logo nas primeiras páginas, é preguiçoso, mimado, autoritário e fútil.

Deveríamos gostar de todos os miúdos de 14 anos, sobretudo daqueles que só vivem nos livros, mas a verdade é que Su Tong não nos deixa: Duanbai é uma criaturazinha detestável, com interesses limitados, proprietário de um cérebro pequenino que nem sequer lhe dá requinte para as intrigas palacianas. Sim, que Duanbai é imperador do universo Xie. Mesmo tendo 14 anos e sendo um vermezinho em corpo de gente.

Não gostamos de Duanbai mas é ele que nos conta tudo aquilo que vai acontecer em “A Minha Vida enquanto Imperador”. E mesmo não gostando desta amostra de soberano, a verdade é que não conseguimos fechar as páginas do livro que a Cavalo de Ferro (ainda na sua versão original) publicou em língua portuguesa em 2007.

Su Tong sabe-nos prender e, por maior que seja a repulsa que a sua personagem nos inspira, a verdade é que entramos com ela numa estranha espiral de acontecimentos: o império de Duanbai não existiu mas, se formos ver bem as coisas, anda aí por todo o lado. Basta abrir os olhos e saber ler as metáforas.

Na nota de introdução ao livro, o autor manifesta o desejo de que os leitores não olhem para o romance como sendo ficção histórica – daí não o ter situado em qualquer tempo específico. O mundo de mulheres e de intrigas palacianas, explica-nos Su Tong, não é mais do que “um assustador pesadelo numa noite de tempestade”. “O sofrimento e o massacre reflectem as minhas preocupações e receios por todas as pessoas de todos os mundos, e nada mais.”

A narrativa começa com a morte do pai de Duanbai, o verdadeiro imperador. O descendente despreza “o homem morto”, isto apesar de ser o seu progenitor e ter mandado no império Xie ao longo de 30 anos. O ainda aspirante a rei do mundo descreve-nos em pormenor, com um lancinante desinteresse, as exéquias feitas em homenagem ao falecido. Quinto filho do imperador posto, era totalmente improvável que pudesse subir ao trono – mas não é isso que acontece.

Mal agarra o poder, este impreparado político depara-se com uma teia de intrigas nada fáceis de gerir, sobretudo quando se tem 14 anos e se é uma criança mimada, eunuco para um lado, eunuco para o outro – os filhos do imperador nem sequer esfregam as partes íntimas sem ajuda. O primeiro problema que tem de resolver está relacionado com a sucessão: a concubina imperial (neste livro há um sem-número de mulheres que imaginamos em vestidos de seda bordados a ouro, constrangidas em apertados sapatinhos) reclama o trono para o seu filho, Duannwen.

Duanbai não vai fazer a vida fácil à concorrência, nem às mães dos seus adversários, num palácio imperial onde a tortura é mato e o prazer reside na dor alheia. Pois é, Duanbai é um estranho ser que não sabe amar – e talvez nunca chegue a descobrir como é que se faz essa coisa do amor. Já a prepotência é característica mais fácil de aprender. Depois de umas tentativas falhadas, não há malvadez que o imperadorzinho não domine.

Su Tong diz que a sua vida e a sua escrita “emergem de um mundo de sonhos”. “A Minha Vida enquanto Imperador”, reconhece, “vem de um sonho dentro desse mundo de sonhos”. Um pesadelo literário, muito bem conseguido, e uma obra indispensável para aqueles que gostam de ficar a pensar nos livros que lêem. O império Xie não existiu e de Duanbai não há registo, mas a verdade é que o que não falta por aí são Duanbaizinhos ávidos de poder. A diferença é que os eunucos são outros e as concubinas também.

Isabel Castro

A Minha Vida enquanto Imperador

Su Tong, 2007

 

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