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“Estagnar é pior que andar para trás”

Diz que não liga a política, mas que ela o segue e se torna “mais uma personagem”. Com “Deus, Pátria e Família”, B Fachada mandou Portugal para um lugar muito pouco agradável. Mas desde então choveram elogios.

Inês Santinhos Gonçalves

Tem sido amado e odiado, acusado de ser intelectual de mais, popular de mais, Variações de mais. Em todas as controversas opiniões, o “de mais” parece ser consenso.

Da roupa à postura, passando pela barba de assinatura e uma voz com um cunho muito próprio, Bernardo criou-se Fachada, um alter ego cáustico que fala uma língua própria, o fachadês. A multiplicidade de identidades, de ‘eus’, de vozes interiores, é, aliás, uma das marcas mais características da sua obra. Talvez por isso tenha já dois álbuns homónimos.

Estudou Física, mudou para Literatura, equacionou uma carreira académica, mas é na música que se encontra e é com ela que ganha a vida. Vê-a assim, como uma profissão e, arriscamos, também como um prazer – assim o esperamos. Desde 2008 que lança religiosamente dois álbuns por ano – se religião há em compor e interpretar faixas como “Há festa na moradia”, “Só te falta seres mulher”, “O desamor” ou “Monogamia”.

É conhecido pelo mau feitio, por não gostar de tocar ao vivo, por ser exigente com o público. E por estes dias está também nas bocas do mundo por ser “o autor que temos de ouvir e celebrar”, como descreveu o crítico de música Mário Lopes.

Começou por fazer parte da Flor Caveira, uma editora independente responsável pela descoberta de bandas portuguesas com Os Pontos Negros e Diabo na Cruz, e músicos como Samuel Úria e João Coração. Acabou por se distanciar do projecto e hoje é representado pela Mbari.

Desde “Viola Braguesa”, em 2008, já lançou “Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado”, “B Fachada” (primeiro álbum homónimo em 2009), “Há Festa na Moradia”, “B Fachada É Pra Meninos”, “Deus, Pátria e a Família” e, por último, o segundo homónimo “B Fachada”, em 2011.

No início do ano passado, “Deus, Pátria e Família”, uma trindade tão familiar aos portugueses, não passou despercebida. Imediatamente comparada ao FMI de José Mário Branco, a canção apanhou boleia na onda contestatária do país. Primeiro foram os Deolinda e o seu “Parva que sou”. Manifestações, greves e uma troika depois, surge uma canção que diz coisas como: “Portugal está para acabar/ É deixar o cabrão morrer/ Sem a pátria para cantar/ Sobra um mundo para viver/ Chegam flores do estrangeiro/ Já escolhemos o coveiro/ Por mim é para queimar/ Mas não quero exagerar”. Caiu o Carmo e a Trindade e os nacionalistas sentiram-se afrontados. Nos versos seguintes surgem algumas justificações – afinal são 20 minutos de EP – mas terá sido pior a emenda que o soneto: “Eu não sei português/ E que se foda Portugal/ Eu canto em fachadês/ A minha língua paternal”.

E quando se adivinhava o início de um percurso na música de intervenção, este Bob Dylan português fez uma brusca mudança de direcção. O mais recente “B Fachada” é, de todos, o seu álbum mais intimista. Um olhar pela fechadura para o interior do cantautor. Desde 2009, quando dizia que “já não tinha idade para os caprichos da Maria”, Fachada adoçou, tornou-se um melancólico inseguro que, agora confessa: “Podes fazer o que quiseres/ Eu deixo… gozar comigo por não ser cantor/ Podes até ser má que eu não me queixo”.

– Disse várias vezes no passado que não seguia minimamente a política. No entanto “Deus, Pátria e Família” tem uma grande dimensão política, de música de intervenção. Até já foi comparado a José Mário Branco.

B Fachada – O Zé Mário é duma geração que seguia a política. Agora é a política que nos segue a nós: por todos os lados. Queria que o “Deus, Pátria e Família” fosse um disco para adultos, tinha de abordar cultura, sociedade e paixão. A política aparece por arrasto, é só mais uma personagem.

– O disco é um incentivo à rebelião? Sente-se frustrado com o estado do país?

B.F. – Sinto-me às vezes frustrado com o estado da cultura. É talvez um incentivo à emancipação cultural. O estado do país é o estado das pessoas. Tudo é demasiado passageiro, às vezes esquecemo-nos que já andam uns a mandar nos outros há milhares de anos e daqui a dez mil ainda vai estar tudo na mesma.

– A canção fala também de um certo amadorismo. Refere-se às classes políticas ou é mais do que isso? É o que falta a Portugal para dar o salto em frente?

B.F. – O amadorismo é um sentimento generalizado. Há uma certa falta de ambição associada aos traumas culturais dos Descobrimentos: para o pequenino que somos já fizemos muito, é esta a lição da cultura portuguesa. Mas as pessoas são todas pequeninas de uma maneira geral, no Fundão e em Nova Iorque. Melhorar devia ser o mínimo para nos sentirmos vivos, estagnar é pior que andar para trás.

– No entanto, numa altura de tão grande dificuldade económica, há pessoas, como é o seu caso, que conseguem viver da música.

B.F. – Ao estado a que o mundo chega quando é uma bênção uma pessoa viver do seu trabalho… A especialização do ser humano em ofícios não se pode dizer que seja uma coisa de ontem. É até um hábito anterior ao dinheiro e às oscilações económicas, se não estou em erro. Isso só muda quando formos todos pelo ar.

– Dizer “que se foda Portugal” ofendeu muitos patriotas. Acha que as pessoas têm dificuldade em fazer a distinção entre uma crítica e um ataque à pátria?

B.F. – Foi uma questão de dias, parece-me. Duas semanas depois de a canção circular já toda a gente tinha digerido a ficção, pelo menos ninguém me quis cortar o pescoço. A reacção natural de um cidadão é achar que a canção ofende o seu próprio país. Na verdade o que eu queria era lembrar que cada um tem o seu país e de que o país é de facto nosso para amar, odiar e profanar.

– Disse que a canção não é um manifesto. Esta letra tão forte é resultado dessa imagem de si próprio que criou, de um artista cáustico e irreverente? Sente que tem de manter essa identidade?

B.F. – Não me esforço por manter uma identidade. Só não sei fazer de outra maneira.

– A música foi um sucesso de downloads. Como interpreta isto?

B.F. – Significa que o título foi bem escolhido.

– Sente que há expectativa que enverede por um certo estilo de música de intervenção? É uma coisa que não faz neste último álbum.

B.F. – Não me preocupo muito com o género de música que pratico em cada canção. Quando faço uma canção não há maneira de não sair Fachada. Julgo que faço música popular. Não se pode considerar um género, é só um tipo de artesanato.

– Como define o “fachadês”?

B.F. – É a língua em que eu canto. A minha língua materna. Não é bem português, pelo menos não o que eu aprendi na escola. É o português que eu falo.

– Há uma componente mais autobiográfica no novo disco? “Não pratico habilidades”, por exemplo, é quase um confessionário, bastante íntimo.

B.F. – É esse o ‘jogo’ deste disco. Quanto mais autobiográfica me parece a canção, mais a personagem me foge do controlo. É um enigma para mim também.

– Em “B Fachada é para meninos” diz ao João para não comer a sopa nem acreditar nas mentiras dos pais. Acha que a música para crianças é demasiado bem comportada?

B.F. – Acho que não nos podemos esquecer que uma criança bem comportada não vale mais que uma malcomportada. Mais vale um menino mal criado com imaginação que um bem-criado e açaimado.

– Como encara as comparações de que tão frequentemente é alvo, com José Mário Branco ou António Variações?

B.F. – Compreendo a necessidade de comparar, mas não sinto que se possa comparar directamente música de tempos diferentes. Da minha música só se pode gostar ou não gostar. Da música do Zé Mário ou do Variações pode passar-se anos a falar da importância que teve e de toda a cultura que foi criada aos ombros deles (e dos outros). Comparar coisas importantes com música do ano passado é injusto, para mim e para eles.

– Tocou com Sério Godinho, num casamento musical perto da perfeição. Identifica-se mais com essa geração de cantautores?

B.F. – A minha geração não é propriamente rica em cantautores. Mais uma vez, é injusto comparar.

– Tem lançado dois discos por ano, mas já falou de se retirar. Quais são os seus planos para o futuro?

B.F. – Depois de 2012, primeiro, tirar férias, que ainda não tive desde que isto arrancou. Depois, voltar com um ritmo mais calmo, a levar as ideias mesmo, mesmo até ao fim.

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