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“Evito escrever sobre memórias públicas”

Su Tong não precisa de abrir os armários da China e de tirar de lá os esqueletos que vendem bem para ser um autor aplaudido fora do país onde nasceu. Dono de uma prosa fluida, o finalista do Man Booker International Prize 2011 vem a Macau este mês. Com muita curiosidade.

Isabel Castro

Veio ao mundo com o nome Tong Zhonggui, que alterou em homenagem a Suzhou, a terra onde nasceu. Vencedor do Man Asia Literary Prize em 2009, um prémio com equivalência ao Booker, Su Tong é unanimemente aplaudido pela crítica e tido como um dos grandes romancistas contemporâneos da China.

De modo distinto de muitos autores que se encontram traduzidos em idiomas acessíveis a quem não distingue caracteres, o autor de “A Minha Vida enquanto Imperador” não explora o passado recente do país onde nasceu como forma de comercialização. Os leitores que procuram memórias tristes da Revolução Cultural não vão encontrar relatos de perseguições nem malvadezas do Bando dos Quatro na obra de Su Tong. Conselho de amiga: se é isso que querem, mudem de livro.

É que o universo criativo muito próprio do escritor não se prende com tempos, nem tampouco com espaços concretos: há uma China sempre presente, marcas e códigos culturais que obrigam a algum entendimento deste Oriente, mas sempre numa lógica ficcional. Su Tong não faz, contudo, parte dos romancistas acríticos e floreados: controla simplesmente a arte de construir imagens com muita ironia. A partir daí, o leitor que faça a interpretação que bem entender. Afinal, é também para isso que serve a literatura. A chinesa e todas as outras.

– É tido como um dos romancistas pioneiros da China, sendo muito aclamado. Como é que olha para o enquadramento que lhe é feito, atendendo a que vive num país enorme, com muitas pessoas, onde ser reconhecido pelo talento não é tarefa fácil?

Su Tong – Não dou importância aos títulos que me atribuem. É certo que escrevi alguns romances ‘pioneiros’, mas não sou um escritor pioneiro, que tem atitudes radicais e consideráveis para subverter e anular a velha tradição literária. Receio que o meu estilo de escrita esteja a recuperar a tradição literária, em vez de a derrubar. Acredito que é mais razoável remendar do que destruir.

– Tem ampla projecção internacional e os seus livros foram traduzidos para vários idiomas, incluindo para português. Sente que àqueles que lêem as suas obras é dada uma hipótese de terem uma nova perspectiva do que é hoje a China?

S.T. – Todos os meus romances se baseiam numa perspectiva pessoal e não têm como intenção oferecer um novo ângulo de conhecimento da China. Claro que os leitores têm o direito de imaginar a China e até mesmo de construírem um entendimento da China com base nos meus romances. Apesar de tudo, sou um romancista chinês. Balzac disse que a história espiritual do indivíduo pode ser a história de uma nação. Na realidade, escrever e ler são dois mundos. Não interessa se os leitores ficam com uma noção ou entendimento errados; os seres humanos tendem a ter uma visão limitada por natureza. Se a história espiritual de um indivíduo é suficientemente forte para falar em nome de um país, então deverá ser uma obra-prima.

– “O Barco para a Redenção” e “A Minha Vida enquanto Imperador” – e isto só para mencionar dois dos seus romances – contêm muitas referências históricas. Mas ao mesmo tempo é possível fazer uma leitura e descobrir significados que nos remetem para a contemporaneidade, numa abordagem diferente do que é a China de hoje em termos de valores e hábitos. Concorda?

S.T. – Sim. Nos romances, a História é só um espelho para reflectir a vida contemporânea, que é quase o subconsciente ou o instinto do escritor.

– Escreve em chinês – mas com a consciência de que os seus livros serão traduzidos. Este facto cria-lhe dificuldades no processo de criação? Não me parece que tente evitar referências culturais de modo a tornar-se mais facilmente compreendido fora do seu país. Considera que a literatura é literatura, independentemente do local onde nasce?

S.T. – A tradução trouxe-me muitos leitores não-nativos, mas nunca tenho em consideração as preferências dos leitores quando estou a escrever. Assim sendo, não tenho qualquer problema durante o processo criativo. De facto, literatura é literatura, não existem diferenças geográficas. Claro que a qualidade das traduções é muito importante. Leio com frequência romances estrangeiros. Se são bem traduzidos, conseguem falar pelo autor numa língua estrangeira, têm a capacidade de contar as histórias de um modo vívido.

– Vários autores chineses que se encontram traduzidos no Ocidente escrevem muito sobre o seu próprio passado. Tem uma abordagem bastante diferente. Considera que os romancistas chineses estão demasiado preocupados em escrever sobre o que correu mal no passado recente da China?

S.T. – Dei conta desse fenómeno. A minha abordagem consiste em evitar escrever sobre memórias públicas, ou escavar os pormenores escondidos e obscuros das memórias públicas. A comercialização, ou a própria dependência dos autores em relação ao seu sofrimento, impôs ‘regras obrigatórias’ aos estilos dos escritores, mas eu prefiro o ‘estilo livre’, em que é mais fácil e importante o acesso à História, à comunidade e aos indivíduos.

– Em 2009, ganhou o Man Asian Literary Prize com “O Barco para a Redenção”. Em 2011, esteve na lista dos seleccionados ao Man Booker International Prize. Quão importante é para um escritor ter este tipo de reconhecimento?

S.T. – A importância deste tipo de reconhecimento tem que ver com o incentivo. Admiti sempre, com franqueza, que gosto da sensação de ser distinguido. Mas também é um facto que estes prémios nunca irão influenciar a orientação da minha escrita.

– Como é que nascem os seus romances? Como é o seu processo de criação?

S.T. – Por norma escrevo à noite, até à manhã do dia seguinte. Em termos gerais, não tenho uma sinopse, porque esquemas feitos previamente revelam-se inúteis e acabam por ser anulados pela própria história. Acredito na lógica e nas ideias que surgem durante o processo de escrita, bem como numa espécie de energia misteriosa.

– É escritor com romances publicados desde 1983. Como é que descobriu que queria fazer da escrita a sua vida?

S.T. – Senti que podia ser escritor quando as minhas histórias começaram a ser aceites, em vez de serem rejeitadas pelas revistas.

– E qual deve ser a função da literatura? A sua literatura deve ter uma função?

S.T. – Todas as funções da literatura podem ser resumidas numa só: o prazer da leitura. As outras funções são por norma atribuídas pelos leitores e pela crítica.

– Quais são as suas principais referências na literatura?

S.T. – Cao Xueqin, Lu Xun. Tuo Dostoevsky. Gustave Flaubert. William Faulkner. Garcia Marquez.

– O que é que está a ler neste momento?

S.T. – “Liars in love”, de Richard Yates. “Rituals” e “All Souls’ day”, de Cees Nooteboom.

– E o que é que está a escrever?

S.T. – Neste momento, estou a escrever um romance.

– Vem à RAEM no final deste mês para participar no Festival Literário de Macau. Quais são as suas expectativas?

S.T. – Estou muito curioso acerca do Festival Literário de Macau e não sei o que irá lá acontecer.

 

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