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Fachadês traduzido

Cinco discos e cinco EPs depois, B Fachada assume em pleno o ‘fachadês’, a sua “língua paternal”. É um português maniento, que mistura um universo tradicional e modernista. No seu último disco homónimo, lançado no ano passado, o cantautor desdobra-se. Deixa de ser o Fachada do costume – um costume que sempre foi pouco estático – e passa a colocar-se dentro de um caleidoscópio: espreitamos e vemos vários dele, que falam uns dos outros e fazem pouco das suas fragilidades. São Fachadas múltiplos – e o que é múltiplo tende a ser melhor.

Neste novo trabalho Fachada amoleceu. E ironizou também, como sempre. Fala de si, fala do seu alter ego. O homem que descreve, a quem dá voz, que adivinhamos ser uma composição de fragmentos de si, não se importa com o ridículo, não se importa de roçar o patético. É “mau de piça” – e então? “Preguiçoso e mau de piça/ Sou um bruto a melhorar/ Enquanto não te fizer justiça/ Não me sento a descansar”. Gosta dela e não desiste: “Tiro a barba para te animar/ Canto a minha pirosada para te chegar ao calcanhar”. É porque este Fachada frágil deixa claro: “Eu não pratico habilidades/ Tu sabes bem como eu sofro com o calor”. E perante tal franqueza não podemos discutir.

A melancolia de Fachada estranha-se um pouco. São oito faixas não exactamente românticas, não exactamente críticas de nada além dele próprio e nada viradas para fora. Com excepção de “Está na hora da passa”, não batemos o pé com o ritmo. Não. Deixamo-nos afundar no sofá, acompanhando aquela voz arrastada, aqueles pianos molengas. Não há Joanas Transmontanas, Manelas ou Marias, não há brincadeiras com instrumentos infantis. Há uma impressionante desfaçatez de exposição. Um descarado convite ao ouvinte para que se ria dele. Funciona: ouvimos, rimo-nos e por ele ganhamos um certo carinho.

A sinceridade é o mote, não fosse este um álbum que assume o nome do autor. Em “Roupa de Estrada”, os coros e o piano envolvem as confissões e as dúvidas. “Está mais fácil ser fachada/ Dou-me bem com a coisa errada/ Trabalhar pra fazer nada”. E mais que isso, muito mais que isso: “Quem me deu as mentiras pra ser eu?/ Vou tentando ser decente/ Um fachada bem diferente do meu”.

A afinação absoluta não o preocupa. Afinal, “todo eu sou desmazelo”, conta-nos. Talvez porque “a juventude é fugaz”, talvez porque não se assuma como um intérprete. Não vale a pena tentarmos adivinhar. Resta-nos esperar pelo próximo álbum. Depois de um ano em que esteve na boca dos críticos, B Fachada subiu a parada e terá de lidar com as expectativas. Do ‘fachadês’ esperam-se grandes voos.

Inês Santinhos Gonçalves

 

B Fachada

B Fachada, 2011

 

 

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