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O quiosque da nossa existência

Esta mármore onde me sento será tão fria quanto a lápide que um dia terei sobre mim, ainda que nesse dia não possa mais reconhecer a que sabem as coisas nem me sirva de grande ansiolítico aceitar que a existência é um estado permanente de fragilidade. A mortalidade só nos pode ser natural quando agimos como se a nossa razão de ser fosse o facto de um dia termos sido – jovens e amantes, relativamente bonitos, absolutamente felizes. Chamemos crise de viver a esta dificuldade de sermos aqui e agora. Uma ausência de presente agravada pela capacidade de registo histórico, por teoria diagnosticada a Portugal mas que me dá jeito importar para dois noivos a quem deito a vista no Largo de São Domingos.

Desconheço as inclinações filosóficas do fotógrafo que os acompanha e o à-vontade que teria se eu me levantasse para lhe dizer que é o maior a fazer o amor na era da sua reprodutibilidade técnica. Por cautela e melancolia, deixo-me estar na minha mármore a deprimir-me com aquele jeito aplicado de transportar duas existências que querem ser vistas como uma só num álbum para mais tarde abrir. Não se vive, recorda-se, como na canção do Victor Espadinha. Serão eles o 30 de Fevereiro um do outro? Como certo tenho apenas que estão num casamento por inventar. Ela com o seu vestido aos folhos amarelo mostarda, a ignorar o frio nos ombros e consciente dos pés calçados nuns embaraçosos ténis; ele, de fato maior que o corpo, a fazer peito de homem no colete abrilhantado e zeloso no cumprimento das instruções do fotógrafo.

É a encenação dos afectos num dia que ainda não existiu e eu faço contas ao dinheiro que gastei aos meus pais em bibliografia para a faculdade sobre o pós-modernismo quando me teria bastado esta imagem. Aprendo que somos mais amadas quando ele está de joelhos na calçada e nos segura a mão – não para nos levantar, antes para sentir com o polegar o dedo onde vai enfiar uma aliança. Confirmo que pensamos mais quando fitamos o vazio (o infinito fica ao virar da cara à esquerda, a mão no queixo é hoje opcional) e que somos mais felizes se houver alguém a ver.

Os noivos prendem também agora a atenção de uma rapariga de franja e de óculos (com ou sem lentes?), aparentemente satisfeita até ter deixado o namorado com a boca seca. A moça entristeceu e eu arrisco a dizer porquê. Aquele amor juvenil, de banco de madeira ao lado da igreja, transformou-se em ânsias de romantismo adulto, certificado em papel e fotografia. A inveja pode bem ser a última palavra d’ Os Lusíadas que isso em nada santifica a natureza dos outros.

A referência a Camões e o meu azedume têm explicação. Li ali na placa informativa que nos governa que “o ambiente geral deste bairro é tipicamente português” e lembro-me dos novos desígnios para Macau enquanto centro de turismo e fábrica de casamentos exóticos, o cruzamento entre Ocidente e Oriente ao serviço do PIB, perdão, GDP. A minha existência enquanto portuguesa num ambiente oficialmente português e oficiosamente trágico perturba-me.

Numa saída very typical procuro ‘dar de beber à dor’ e essa qualquer coisa que pudesse lembrar-me a Mariquinhas. Aproximo-me de um quiosque que à distância parece abandonado. Apesar do ar tosco a casa tem gente, ainda que pouco interessada em fazer freguesia. Uma pilha de sumos embalados é tudo quanto há para dar cor a tão patusco elemento de bairro português, sem jornais, sem tabaco e – valha-nos a identidade – sem bica. Chamemos crise de viver a esta dificuldade de sermos aqui e agora. Ou então fado. É que eu não vejo nada, nada, nada que me lembre a Mariquinhas.

Sónia Nunes

 

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