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O véu da separação

Um casal discute em frente a um juiz que a câmara não filma. Argumenta, aproxima-se do ecrã, gesticula, pede opinião. Simin quer o divórcio. Não porque se queira ver livre do marido mas porque finalmente conseguiu o visto para poder sair do país, onde acredita que a filha terá um futuro melhor. Ele, Nader, recusa-se a sair – tem um pai doente, quase acamado, de quem prometeu cuidar. E da filha Termeh, de 12 anos, também não abre mão.

Estamos no Irão de 2011. E respiramos de alívio ao constatar que a obra de Asghar Farhadi não faz uso dos clichés religiosos já tão gastos pelo mundo ocidental. A separação deste casal nada tem que ver com violência doméstica, fanatismo ou ausência de direitos das mulheres. O que não quer dizer que as questões de género ou religiosas sejam ignoradas, apenas não são lições de moral.

Esse divórcio que Nader autoriza (porque tem de autorizar) fica em suspenso devido à filha do casal, que ambos os pais querem por perto. Entretanto, Simin sai de casa, deixando o marido a braços com um pai que sofre de Alzheimer e goza já de pouca mobilidade motora.

Para lidar com a nova situação, Nader contrata alguém para tomar conta do pai. Razieh surge atemorizada, coberta por um largo e envolvente lenço negro, que a tapa quase da cabeça aos pés. Pela mão leva a filha de quatro anos. Largos minutos vão passar até nos apercebermos que está grávida.

Logo no primeiro dia, Razieh depara-se com um problema: a caminho da casa de banho, o velho senhor descuida-se. Atrapalhada e sem saber o que fazer, tenta que ele troque de roupa sozinho, mas não é bem-sucedida. Por fim, Razieh decide telefonar ao seu imã para confirmar se é ou não pecado despir um homem doente com mais de 80 anos.

A partir daqui, estabelecidas as dificuldades e dramas domésticos da família, uma sucessão de acontecimentos inicia um drama que chega a ganhar contornos de thriller. Razieh perde o bebé e Nader é acusado de homicídio involuntário.

Mais do que uma demanda pela verdade, o filme desenrola-se como uma busca pela honestidade, pela integridade, pela moral, pela leve, tão leve distinção entre o certo e o errado. “A Separation” faz uso de uma mestria que nos permite entender e sentir empatia por todas as personagens, até mesmo pelo descontrolado marido de Razieh.

Não há bons nem maus, há equívocos e mentiras piedosas. Há medo. E há Termeh que, no fim de contas, assume um papel central nesta história. O pai, que lhe quis preservar a inocência, acaba por forçar a jovem a mentir.

É talvez esta a cartada mais forte deste drama contemporâneo. Assistimos ali ao momento em que uma filha deixa de ver o pai como um ser perfeito, ausente de falhas ou fraquezas. A este instante esmagador e definitivo é acrescentado o fardo da mentira, um recurso que a jovem vê como necessário para livrar o pai da prisão.

“A Separation” venceu o Urso de Ouro do Festival de Berlim 2011. No discurso de agradecimento, Asghar Farhadi prestou tributo a Jafar Panahi, um dos três realizadores iranianos presos por alegadamente apoiarem o ‘Green Movement’ durante os protestos em torno das eleições. A prova de que, no Irão, arte e política ainda não têm perspectivas de divórcio.

Inês Santinhos Gonçalves

 

A Separation

Asghar Farhadi, 2011

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