Uncategorized

Viagem através da etnografia

A Fundação Oriente inaugura hoje, na Casa Garden, a exposição “Máscaras da Ásia”. Uma mostra que conta com objectos da colecção Kwok On, iniciada em Hong Kong na década de 1970. A entrada é gratuita.

Depois de Banguecoque, na Tailândia, agora é a vez de Macau acolher a exposição “Máscaras da Ásia”. China e Índia são os países que contribuem com mais peças para a mostra que se inicia, hoje, na Casa Garden.

Ao todo, são cerca de 500 as máscaras que a Fundação Oriente tem no seu acervo, em Portugal. No entanto, quem se deslocar até à exposição só poderá ver cerca de metade.

“Não serão expostas todas as máscaras que vieram da Tailândia. Em Banguecoque apresentámos 252, mas neste espaço não é possível expor todas. Foram poucas as que ficaram de fora”, diz-nos a responsável pela produção da exposição, Sofia Campos Lopes.

Em vez do valor monetário de cada peça, a museóloga destaca a importância etnográfica de cada máscara, já que “envolve uma vertente de ritual muito importante e que participa do quotidiano das comunidades das várias culturas asiáticas”.

É com exposições como esta que a Fundação Oriente cumpre um dos seus desígnios: “aproximar culturas”. E neste caso, segundo a responsável portuguesa, será mesmo possível “dar uma grande volta pelo continente asiático” porque estão expostos objectos provenientes da China, Índia, Tailândia, Japão, Coreia, Sri Lanka e Indonésia.

“A colecção é muito rica e na Europa é única. A maioria [das máscaras] representa os mesmos deuses, as mesmas entidades, as mesmas divindades a que as comunidades de hoje em dia continuam a prestar culto e a venerar. Daí a importância de um objecto etnográfico”, explica Sofia Campos Lopes, há 11 anos na fundação.

Todas as máscaras presentes na mostra podem ser utilizadas em procissões, em rituais de exorcismo e de cura ou em teatros dançados. “Portanto, temos de nos imbuir desta diversidade e tentar perceber o que as diferentes comunidades pretendem quando usam estas máscaras”.

Grande parte dos exemplares apresentam aspectos quase demoníacos. Mas, na realidade, a maioria das máscaras representam divindades boas, assegura a museóloga. “Os deuses encarnam faces iradas quando é necessário. Por exemplo, o deus Vishnu, popular na Índia, em muitas encarnações transforma-se noutra entidade com outro nome para salvar a Humanidade”, justifica.

Operação de risco

Viajar pelo mundo com uma exposição desta natureza acarreta uma responsabilidade que tem que ver com a segurança das peças. “Acho que a maior parte das pessoas desconhece que é um processo complexo e moroso. É preciso ter muito cuidado. Estes objectos só podem ser transportados por empresas especialistas em transporte de arte. A cada uma das peças está associada uma ficha de verificação com o estado do objecto antes de sair da instituição a que pertence. Depois, tem de ser novamente verificado quando chegamos ao destino”, explica Sofia Campos Lopes.

A delicadeza de cada objecto nunca é descurada, até porque existem peças que requerem maior atenção. Um desses casos é o de uma máscara de nô, a mais antiga da exposição, datada do século XVIII (Wakaonna).

Depois da Tailândia e de Macau, a colecção parte para o Continente. Pequim será a cidade que vai acolher a exposição que, nas datas de inauguração, é acompanhada de uma visita guiada. P.G.

Do Japão chega Namahage

Namahage é a designação atribuída a um espírito terrífico do Japão. A prática cultural ocorre na véspera do ano novo, em Tohoku, com os jovens locais a mascararem-se de demónios, antes de irromperem nas casas das vilas com o intuito de amedrontar crianças preguiçosas.

“É semelhante ao nosso papão para as crianças”, explica Sofia Campos Lopes. As personagens incarnadas ameaçam arrancar os calos das mãos e dos joelhos das crianças, “ganhos de tanto se aquecerem imóveis juntos do lume”. De seguida proferem dizeres propiciatórios, junto de cada altar doméstico do deus do ano, recebem bebidas e bolos de arroz. No fim, retiram-se soltando gritos alucinantes.

A função inicial desta performance, recorda a responsável pela produção da exposição em Macau, foi a de ritual de limpeza das almas, das gentes das comunidades, no sentido de trazer um ano mais próspero.

Variedade de mundos e matérias

Na exposição “Máscaras da Ásia” um pormenor salta à vista. Todas as peças são muito diversas, em termos de significado e composição. Algumas são esculpidas em madeira, outras foram construídas em papel maché, tecido ou ainda metal. Existem também máscaras em três dimensões, como as chinesas de dixi (teatro de exorcismo) e as de Okina, no Japão, ou planas, como diversos exemplares do teatro laico do Tibete.

A função atribuída a cada peça é também variada, mas na sua maioria serve para representar seres divinos ou demoníacos, não humanos, como animais – alguns deles míticos.

Catalogar o espólio agora presente na Casa Garden nem sempre parece ser tarefa fácil. Algumas pertencem à arte sacra, enquanto outras têm uma função lúdica ou decorativa, como as máscaras de carnaval ou como as que os burgueses colocam em salões.

Finalmente, há também peças ligadas às artes do espectáculo, que têm uma origem religiosa, mas que acabaram por desempenhar um papel somente laico. Exemplos disso são as máscaras nô, do Japão. Provém de um rito religioso, em que são evocados os mortos e espíritos.

Na Índia, muitos destes objectos são requeridos nos rituais ou nos espectáculos para a representação de deuses ou das suas encarnações. E na Indonésia servem de topeng (espectáculo de dança), nos quais são evocados heróis antepassados.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s