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George pensa muito

Isabel Castro

 

Antes de a barba arranhar a cara, quando as borbulhas são senhoras de todo o terreno, o mundo é mesmo diferente. Há uma idade em que a filosofia das coisas se sobrepõe às próprias coisas, em que pensamos muito nesse conceito absurdo que dá pelo nome de existência. “George, tu pensas de mais”, grita Sally (Emma Roberts) ao protagonista de “The Art of Getting By”. De facto, George (Freddie Highmore) pensa muito.

Precisamente por pensar muito, George pouco faz (além de pensar). É um puto que não se entretém com coisas, porque concluiu que a vida é mais ou menos igual para todos: quando chega ao fim, não sobra nada.

Nos 90 minutos (longos, diga-se) que Gavin Wiesen nos oferece, George tem tempo para crescer. Passa a preocupar-se com assuntos mais terrenos que o sentido da vida: faz parte da altura em que a barba começa a arranhar as miúdas passarem a ser assunto palpável, matéria para a qual a metafísica pouco interessa.

Filme seleccionado para a última edição do Sundance, o trabalho de Wiesen tem um ponto de partida interessante: George é um miúdo com problemas na escola por ter chegado à conclusão que, independentemente do que faça na vida, a vida é curta. E, como anda distraído com estas constatações, não tem tempo para os trabalhos que é obrigado a fazer se quiser pensar em ir para a faculdade.

O puto irónico mas entediante que anima o filme (Highmore cumpre bem o papel que lhe é dado) não tem um grupo de amigos. Vive com uma mãe normal e com um padrasto menos normal. Desenhar é a única actividade a que se dedica, ainda que para ela transporte o alheamento em que vive: os seus cadernos e livros são intermináveis doodles correspondentes a intermináveis horas de tédio.

Mas eis que George é abordado por Sally – uma rapariga totalmente normal, bonita, mais velha e com uma postura quase maternal. No modo entediante como a vida do rapaz se estrutura, Sally é um factor de distúrbio. George não está preparado para que a vida tenha coisas destas.

Bem interpretado, “The Art of Getting By” tem um princípio interessante, avança de forma consistente, mas resvala para o lugar-comum. Falta-lhe o elemento-surpresa que inverte a história – não há murros no estômago, no aborrecido mundo de George é tudo bastante monocromático. Se a intenção de Gavin Wiesen era transportar o espectador para dentro da (falta de) acção, terá sido bem-sucedido: é difícil conter um bocejo ou outro durante um filme que, afinal, não é tão longo quanto isso.

De resto, o desfecho aproxima-se em demasia das lições de moral que, dizem, os miúdos têm de aprender se quiserem ser gente. Perde-se o encanto dos primeiros minutos de acção, aqueles em que ainda achamos que é possível voltar à adolescência e pensar em coisas mais importantes do que aquilo que temos para fazer. Todos os dias.

 

The Art of Getting By

Gavin Wiesen, 2011

 

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