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A morte antes da vida

Quando uma criança cresce numa casa em que o rés-do-chão é uma agência funerária, espera-se um desenvolvimento peculiar. Desde pequenos que Nate, David e Claire viveram entre viúvas chorosas, cheiro a formol e amostras de caixões. O negócio da família, gerido pelo pai, obriga ao silêncio, à roupa discreta, à contenção. E gera em pais e filhos uma distorcida (ou extremamente lúcida) visão da vida e da morte.

Não é sobre a infância que incide “Six Feet Under”, mas ela pressente-se como um crescendo que culminou ali, logo no primeiro episódio. Vão seguir-se cinco temporadas e 63 episódios, mas fixemo-nos, por agora, no primeiro. Nathaniel Fisher Senior, o patriarca, morre num acidente de automóvel. E a família, mãe e filhos adultos, vêm-se a braços com a funerária que, convenhamos, não é actividade para qualquer um.

David (Michael C. Hall, que mais tarde ficou conhecido por ser a personagem principal da série “Dexter”) é o filho do meio, um homossexual reprimido que nunca saiu de casa e se tornou o braço direito do pai. Nate, o mais velho, fugiu assim que pôde, mas é obrigado a voltar para dar apoio à família. Claire é a mais nova, filha já fora do tempo, uma adolescente de cabelos ruivos em quem todo aquele ambiente mórbido criou um particular sentido estético e dotou de um sarcasmo acutilante. Ruth, a mãe, mantém os cabelos longos da juventude e uma doçura que roça o irritante. A ingenuidade dela vai transformar-se em emancipação revoltada, mas isso é em temporadas mais à frente.

Não só destas personagens é feita “Six Feet Under”. Há Brenda, a desequilibrada e inebriante namorada de Nate, há Keith, o namorado secreto (e extremamente bem parecido) de David e há Frederico, o homem encarregue de compor os corpos que chegam à funerária, por mais estraçalhados que estejam.

Cada episódio começa com uma morte e ao fim de uma temporada já nos habituámos. Mas aquilo que sempre surpreende é a complexidade daquelas personagens e a capacidade que têm em nos comover, arrepiar e pensar. A série inclui alguns momentos de surrealismo, em que temos acesso aos pensamentos mais absurdos daqueles que nos animam o ecrã. Também há encontros entre Nate e o falecido pai, que nunca saberemos se serão fruto da sua imaginação, consequência de um tumor ou apenas um toque de espiritualidade televisiva.

Além de um conjunto de talentosos actores, a série de Allan Ball consegue a narrativa simultaneamente mais profunda, mais mórbida, mais inteligente, acutilante e distorcida das produções da HBO. Frases destas, claro, são controversas, quando falamos do canal que reúne as melhores séries televisivas norte-americanas. Mas “Six Feet Under” consegue o prodígio de não ser moralista, de não ser lamechas e, ainda assim, ser profundamente comovente. E, para o bom e para o mau, nos obrigar a uma avaliação daquilo a que chamamos vida – um encadear de coisas que nos acontecem e que, depois de cinco temporadas desta série, queremos passar a compreender. Porque se a vida são dois dias e um é para acordar, é melhor sabermos o que nos espera na hora de adormecer.

 

Inês Santinhos Gonçalves

 

Six Feet Under

Allan Ball, 2001

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