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“As pessoas que escrevem por dentro são outra coisa”

Carlos Picassinos

É um dos participantes no festival “Rota das Letras”, Rui Cardoso Martins, escritor que ao segundo livro venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Mas não é a cavalo desse título que o autor de “Deixem Passar o Homem Invisível” desembarcará em Macau. Quem estará presente, mais do que o laureado, será o pantagruélico jornalista, repórter, cronista, guionista, (e sim, benfiquista) e alentejano que, após duas tangentes, conhecerá finalmente o território. Está a meio de um novo livro mas, como diz, mantém vários pratos a rodar ao mesmo tempo. Continua a escrever humor nas suas Produções Fictícias, já sem o “Contra-Informação”, para cinema depois do sucesso de “Zona J”, a manter a crónica dominical no jornal Público, tanto tempo depois de “Levante-se o réu”. Nesta entrevista, Rui Cardoso Martins fala do Alentejo e a esse pretexto da literatura como a entende, e de viagens, da sátira e de como era difícil o humor em Portugal. E que pena não ter falado de cinema. Mas já era tarde, o café queria fechar.

– Escritor, jornalista, guionista, humorista. Se lhe pedisse para se identificar o que é que escolhia?

Rui Cardoso Martins – Escritor, sem dúvida, dividindo-me em várias partes.

– E isso dá-lhe para se concentrar nalguma coisa?

R.C.M. – Sim, divido muito bem os dias. Escolho os dias, ou as partes dos dias, em que vou trabalhar sobre isso. Como trabalho em casa sozinho dá para fazer. Parece complicado mas é uma velha tradição da escrita. Houve muitos escritores jornalistas e todos eles continuaram a sua vida. Depois temos é de encontrar um equilíbrio na maneira como se escreve. Não há dúvida alguma de que quando estou a escrever um livro tenho de fazer uma barragem de fôlego contra as outras formas de escrever e, no meu caso, de televisão, para cinema, do humor, e do jornalismo em si. É um exercício muito pessoal e, como tudo, é uma questão de método. Uns escrevem de jorro e revêem no fim.

– E tem um método?

R.C.M. – Tenho vários mas na escrita é como uma guerra de trincheiras. Estou ali parado, depois avanço 100 metros, depois recuo um bocado, os meus textos crescem um bocado assim, depois com umas sortidas que correm mal, uns mortos pelo meio, mas o livro vai crescendo assim. Ainda hoje estive a fazer esse tipo de trabalho que é acrescentar, fazer uns ataques numa frase e depois voltar para trás.

– Mas há alguma distinção essencial entre os tipos de escrita?

R.C.M. – Há. Existe uma responsabilidade enorme em escrever ficção. Acho que a ficção deve entrar no campo da arte e a arte tem essa responsabilidade grande que é captar o espírito do seu tempo, antecipar o que aí vem. Acredito que a literatura é uma arte no sentido mais simples, deve intervir no seu tempo e nas pessoas que vivem no seu tempo. Mesmo ao nível simbólico de transformação da linguagem e de compreensão do mundo. Até agora, só escrevi dois romances precisamente porque tinha noção da responsabilidade disso e do mal que é andar a escrever livros para estragar árvores. Foi de tal maneira assim que só comecei a escrever quando fui empurrado por escritores que admirava, que me disseram directamente ‘você devia…’, porque eu não tinha coragem, achava que não tinha capacidade. Mas, depois, impôs-se. Foi qualquer coisa de estranho. Um dia comecei a acordar as cinco da manhã com uma ridícula inquietação, e com ideias. Não sei de onde é que isto veio. A minha mulher, que era jornalista e foi editora do Lobo Antunes, a certa altura, disse-me ‘enganaste-me, nunca me disseste que eras assim’, que é uma maneira cómica de pôr as coisas que é, precisamente, ao contrário de como elas são. E eu disse-lhe, ‘olha, nem sabia…’. A ajuda dela foi precisamente tentar desencorajar-me. E foi uma grande ajuda (risos).

– E daí o livro.

R.C.M. – Depois escrevi um livro, correu bem. Encontrei uma coisa estranha na minha cabeça que foi tomar como vulgares coisas que não podem ser, como é o caso do suicídio dos colegas de turma. No entanto, só ao fim de alguns anos e longe da minha terra, Portalegre, é que percebi que isto não pode ser normal! Foi mais ou menos assim com alguns casos práticos de algumas situações de que me lembrava. É um daqueles mistérios… impossível de explicar.

– Mas é uma caracterização do Alentejo?

R.C.M. – O Alentejo é complexo…“Se eu gostasse muito de morrer” é o título do livro que, aliás, é uma frase de um personagem do Dostoievsky, o Raskolnikov, no “Crime e Castigo”. É uma epopeia sem grandes coisas, sem grandes acontecimentos, e o segundo é uma viagem numa Lisboa subterrânea contra uma série de lugares-comuns que há partindo do princípio que os cegos são pessoas como as outras só que apenas não vêem, e num quadro de calamidade que é a possibilidade de vir aí uma onda gigante e um terramoto.

– Mas o Alentejo foi um regresso a qualquer coisa que sempre esteve aí, como disse?

R.C.M. – Acho que todos os escritores, pelo menos os que eu admiro, começaram por perceber o que lhes tinha acontecido na vida. Acho que só se escrevem coisas importantes quando os escritores partilham muito aquilo que lhes aconteceu. Por assim dizer, o Alentejo formou-me, foi lá que vivi as minhas primeiras desilusões, os meus primeiros amores, foi a minha guerra, e foi aí que fui buscar o motivo do livro. Também acredito num princípio básico que é o escrever por dentro. Quando se escreve por dentro coisas que ficam mais de acordo… Não sei explicar isto muito bem… mas acredito que é escrevendo-nos por dentro que se atinge aquilo que a literatura deve ser, que é uma ponta de flecha, de fateixa que se atira às pessoas para as agarrar, e para isso é preciso saber do que se está a falar.

– É possível escrever desde muito novo? Essa que falava não é uma condição da maturidade?

R.C.M. – Acho que sim, acho que é possível. Temos casos extraordinários mas depois também temos casos de pessoas que se esgotaram rapidamente. Por acaso, acho que na literatura é preciso um bocadinho mais de maturidade. Mas existem excepções. É como nos domínios da ciência, os grandes cientistas revelam-se aí aos 25 anos, não é…

– Existe também esta pressão do mercado em volta do jovem talento…

R.C.M. – Ah, isso nunca tive felizmente. O jovem talento! Houve ali uma altura em que todas as semanas aparecia um génio. Usavam-se palavras como espantoso, estupendo, fantástico, fabuloso. Houve a década do fabuloso e apareciam assim uns adjectivos exagerados para as pessoas.

– Mas também há as grandes revelações…

R.C.M. – Pois, mas isso das revelações revela-se depois. E faço essa reflexão também sobre mim. Não sei se aquilo que escrevi vai ter algum valor daqui a 20 anos. Evidentemente que se eu pensasse que pudesse não ter, não escreveria, mas não sei. Mas é como dizia o outro, também não podemos só estar a pensar na posteridade. O que é que a posteridade fez por mim? Não fez nada.

– Voltando ao Alentejo, uma literatura para o nosso tempo, bebe aí nesse sentido social realista do termo?

R.C.M. – No social sim, mas não nesse sentido social político, mas no sentido do social rico, isso tem, de compreensão da mente humana, não etnográfico. No sentido de humor, isso sim. Olhe, acredito nisto, até porque trabalho em humor, de que aligeirar é aprofundar. É só isto. E acredito que o humor em todas as suas vertentes, incluindo a negra, tem uma capacidade de compreensão e de distorção para entender as coisas, e que procuro utilizar. Veja-se o Dostoievsky de que estávamos a falar à bocado, aquilo está cheio de humor negro, e nesse sentido quando falo de suicídio no Alentejo pensei sempre numa comédia negra. As minhas personagens têm sempre esse distanciamento de não levar as coisas muito a sério.

– Como no Alentejo. Também ninguém leva as coisas muito a sério.

R.C.M. – Sim, acho que há essa capacidade no Alentejo de se saber brincar consigo próprio, lá está um lugar-comum, mas há uma capacidade de nonsense. O Alentejo tem muito isso, pessoas que parece que não acreditam em nada, situações que dão vontade de rir. Lembro-me, perfeitamente, de um meu amigo que um dia numa bebedeira, subindo a Rua Direita, encontrou um caixão aberto num carro funerário com um forro cor-de-rosa e deitou-se lá dentro a dormir até aparecer o viúvo com a morta nos braços e a polícia ao qual ele pediu muita desculpa, mas elogiando a qualidade do forro. Isto parecem coisas inventadas…

– Mas esse Alentejo ainda existe?

R.C.M. – Ainda, ainda. Estive no Alentejo este fim-de-semana numa matança de porco, Baixo Alentejo neste caso. Mais baixo é difícil porque foi na margem esquerda do Guadiana, a 20 quilómetros de Barrancos, Santo Aleixo da Restauração. Tenho um grupo de amigos que canta aquele cante e eles tinham inventado há poucos anos uma canção que era isto, a ver se eu me lembro: ‘Mas que rica vida ser alcoolizado desde pequenino e para sempre ser feliz’, era uma coisa assim. Isto tem um nível de crueldade, auto-análise… ‘Eu sou alcoolizado desde pequenino e agora para variar venha lá mais vinho’… Estou a falar de um grupo de rapazes de 18 anos que inventaram esta coisa e que cantam, e é um cante que vai entrar na candidatura a património imaterial. Aqui entramos nos métodos de trabalho que uso, falar com as pessoas, estar muito atento… e aí o jornalismo serviu-me. Mas é como um grande jornalista, o Hemingway, ele que era um brilhante repórter, disse a partir de certa altura: é preciso parar com isso porque se não já não se consegue. Por isso, é preciso parar porque manter as duas coisas, exactamente, no mesmo nível é difícil. Por isso, vou fazendo menos reportagem porque sinto que tenho de combater esse lado, por instinto da responsabilidade da ficção, não sei explicar isto melhor. Por pressentir que aquilo sai mais difícil, mais complicado mesmo que não se esteja a falar de factos reveladores.

– O segundo livro em Lisboa acompanha o seu percurso do Alentejo para a capital. Há pontos de contacto entre um e outro?

R.C.M. – Não, nem por isso. É sim também uma epopeia subterrânea aludindo ao que seria a confusão de Portugal se acontecesse uma catástrofe, qualquer dia acontece, e o que podia acontecer a Lisboa e à cabeça das pessoas. E também fala de coisas muito simples. O facto de as pessoas tratarem a deficiência como uma espécie de palermice, que é o que me enerva, ou como metáfora política.

– Como Saramago…

R.C.M. – Pois, tratou-a como metáfora política, não me agrada particularmente esse tipo de atitudes com coisas que podem acontecer a qualquer pessoa, uma doença, a cegueira não deixa de ser cegueira. E acontecem coisas tão esquisitas tecnicamente quando se é cego. Tenho amigos cegos. E uma das coisas boas foi que eles se reviram nisto. Usam a palavra ‘ver’ com a maior das naturalidades.

– Houve alguma investigação a esse mundo?

R.C.M. – Sim, fiz investigação. Sabe porquê? Porque é de uma grande responsabilidade escrever sobre cegueira. Estava cheio de medo porque rapidamente, também, entrámos numa série de lugares-comuns. E entramos nisso que estava a dizer de transformar as coisas em alegorias. Estas questões, tive de as resolver muito bem para saber o que estava a escrever. É que é tudo tão inventado, apesar de se passar nos subterrâneos de Lisboa que existem, a aventura é tão inventada que não me podia enganar nisso.

– Mas não acaba por ser também uma alegoria?

R.C.M. – Pois, aí é que a porca torce o rabo (risos). Acabou por ser mas não era essa a minha ideia. Engraçado como houve quem dissesse que o livro era uma boa alegoria de Portugal. Mas partindo não de uma ideia alegórica. Tive a ideia por causa de um famoso autocarro do Santana Lopes que caiu num buraco em Lisboa, há alguns anos. Se em Lisboa pode cair um autocarro num buraco também pode cair um carro e se pode cair um carro também pode cair uma pessoa. É uma história de sobrevivência e de acreditar ou não em milagres, e a força que as pessoas põem nisso, o sentido um bocado crítico dos santinhos, a religião e Fátima. Tudo coisas que respeito quando as pessoas acreditam mas, de facto, não acredito nelas. Acredito no efeito que fazem sobre as pessoas.

– Ganhou com o livro o grande premio da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Isso é que foi entrar logo para a galeria.

R.C.M. – Senti-me bem, especialmente, quando não sabia que estava a concurso. Mas da galeria não sei, aquilo também [na APE] estava tudo a cair! (risos) Mas foi curioso mesmo porque não sabia que estava no concurso. Aquilo havia 80 e tal livros e o júri escolheu o meu. Olha, ainda bem. Fiquei honrado porque continuo a achar que aquele prémio, para uma obra, é muito importante.

– Embora já ninguém lhe dê importância nenhuma.

R.C.M. – Sim, já não se dá a importância que se dava dantes.

– Não se sentiu imediatamente engolido pela instituição “literatura portuguesa”?

R.C.M. – Não, não. (silêncio) Não, olhe, nesse aspecto, tento levar a coisa mais para o lado pessoal. Aquilo que tenho mesmo orgulho é ter conhecido o Dinis Machado, dele me ter dito para escrever, da minha amizade com ele. Foram algumas palavras que o Cardoso Pires disse sobre mim que saíram aqui e ali, ou as coisas que ele me mandou dizer, que não o conhecia pessoalmente, a minha amizade com o Lobo Antunes que é uma amizade, enfim, este tipo de coisas é que valorizo. Acho que as pessoas que escrevem por dentro são outra coisa.

 

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