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Ballet com panchões

O clássico de Tchaikovsky “O Quebra-Nozes” serviu de inspiração para um ballet com muitas referências chinesas. “Panchões” veio de Hong Kong mas promete dizer muito ao público de Macau.

Inês Santinhos Gonçalves

Em “Panchões”, a versão chinesa do clássico de Natal “O Quebra-Nozes”, há troca de prendas, brinquedos, cabeças de leão, mahjong e lai-si. As personagens limpam a casa e preparam-se para receber visitas. O espectáculo, que hoje e amanhã sobe ao palco no Centro Cultural de Macau, tem como cenário Hong Kong nos anos 1960 e passa-se durante o Ano Novo chinês.

Foi há quatro anos que o coreógrafo Yuri Ng adaptou o bailado de Tchaikovsky, mas a ideia remonta a 1997, quando dançava no Ballet Nacional do Canadá. Para complementar a produção, que conta com 36 bailarinos, convidou o japonês Yuh Egami. Juntos criaram o espectáculo do Ballet de Hong Kong que hoje estreia em Macau.

Ao contrário do que se passa em “O Quebra-Nozes”, em “Panchões” não é Clara, a menina, a personagem principal. A produção do território vizinho decidiu dar protagonismo ao tio Drosselmeyer que, no original, constrói o boneco do quebra-nozes mas desaparece depois do Acto II. Agora chama-se tio Tak e para se transformar na figura central teve de ser “desenhado ao pormenor para o fazer mais de carne e osso”, explica Yuri Ng. Tak é um velho fabricante de adereços de cinema, no tempo em que os panchões ainda eram permitidos em Hong Kong. Ao ser visitado por Clara e os amigos, oferece-lhes brinquedos feitos com os típicos cartuchos de pólvora revestidos de papel vermelho.

Esta é também uma viagem no tempo para o protagonista, que é interpretado por vários bailarinos, que o encarnam ao longo dos anos, tanto jovem como idoso.

“Há aqui um elemento simbólico: o panchão é uma coisa única, acende-se e pronto, acabou. No caso do brinquedo, ele ‘acende-se’ e pode voltar a montar-se. É uma metáfora para a vida, quando o tio olha para a sua juventude, apercebe-se que os tempos mudaram”, descreve o coreógrafo. Apesar da seriedade desta mensagem, que se centra na inevitabilidade da passagem do tempo, “Panchões” é uma produção “muito colorida e com sentido de humor”, garante o bailarino.

A narrativa passa-se em 1967 para fazer alusão ao ano em que os panchões se tornaram proibidos em Hong Kong e também para conseguir aproveitar o imaginário cinematográfico que, na época, abundava no território. Há bailarinas go-go e alusões a muitas figuras do cinema da altura – é comum que a audiência mais velha se ria com muitas referências feitas ao longo do espectáculo, que as gerações mais novas não compreendem. No entanto, um entendimento de tais alusões não é obrigatório para apreciar o ballet – a música de Tchaikovsky mantém-se igual, e a técnica e interpretação dos bailarinos oferece entretenimento suficiente.

Yuri Ng, que estudou e trabalhou em Hong Kong, Canadá e Inglaterra, diz que o maior desafio para os bailarinos da antiga colónia britânica não está na apetência técnica mas na capacidade de imaginação, principalmente no que toca à relação com a realeza, tema comum em ballets clássicos e ausente da realidade do território. “Temos de ensinar os bailarinos a comportarem-se perante um membro da família real, como se inclinarem num certo ângulo que demonstra humildade, por exemplo. Não tem só que ver com a forma como se fazem os passos, mas com o ar que se adopta, se é de camponês ou de cisne”, aponta.

A capacidade de imaginar algo inexistente ou até irreal é indispensável: “Quem sabe como um cisne bate as asas? Ninguém vê a lua através das árvores da floresta – quantos de nós realmente vão a florestas? Como se imagina um lago onde um cisne se torna humano? Tudo isso é muito desafiante para a nova geração”. A qualidade técnica pode existir, mas o coreógrafo insiste na importância da sensibilidade. “Como podem ser mais vulneráveis? Como fazer quando têm de imaginar que se vão transformar num cisne ou dormir por 100 anos?”

“Panchões” sobe ao palco hoje e amanhã, pelas 20h, no Pequeno Auditório. Os bilhetes custam 180 patacas mas há descontos para os Amigos do Centro Cultural de Macau (dez por cento), estudantes e maiores de 65 anos (50 por cento), e grupos (15 por cento).

 

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