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“Havia uma justiça para ricos e outra para pobres”

Carlos Picassinos

– A crónica nos tribunais “Levante-se o Réu” durou quase 20 anos, e mostrava o jardim zoológico humano, no sentido positivo.

Rui Cardoso Martins – O “Levante-se o Réu” foi, como se costuma dizer à antiga, uma escola. Porquê? Primeiro, porque tive de aprender a respeitar as pessoas, porque à medida que ia assistindo aos julgamentos pensava que aquilo podia estar-me a acontecer a mim, a um amigo, a uma amiga, a uma irmã. Bastava que as coisas fossem de maneira ligeiramente diferente. Segunda coisa: não se pode tirar conclusões sobre as pessoas em meia hora, ou dez minutos, podemos estar a cometer uma grande injustiça. Mas creio que foi a primeira vez, e estamos a falar de há 20 e tal anos, que se falou daquela maneira sobre droga, por exemplo, num jornal. Houve dois ou três casos que me ficaram na cabeça. Um deles foi o de um rapaz a explicar-me como é que começou a tomar heroína no dia em que o pai morreu. Isto hoje em dia é banal, parece assim um choradinho, mas a maneira como ele contou aquilo nunca tinha visto num jornal. Eu contava aquilo assim e as pessoas ficavam chocadas. Outro caso de droga: estava um homem de 30 e tal anos a ser julgado por ter roubado uma garrafa, e depois lá explicou que era para a droga e tal. E ao lado dele estava uma rapariga de 16 ou 17 anos e, nisto, o juiz apercebe-se: ‘Mas espera lá, você estava a roubar uma garrafa no mesmo supermercado, à mesma hora’. ‘É o meu pai’, responde-lhe a miúda. Eram duas gerações que se drogavam. Isto era impressionante, era e ainda é, mas isto há 20 anos pouco se falava assim. Lembro-me muito bem destas coisas, que estive ali semana após semana, e meses e anos, que escrevi a crónica durante 17 anos. E os tribunais têm essa vantagem de ouvirmos as duas partes. Tinha a sensação de estar naqueles filmes de tribunal em que no fim há um twist qualquer e se percebe que não é bem assim. Foi uma boa escola.

– Ao longo desses anos, que é imenso tempo…

R.C.M. – Conseguiu ser a crónica mais antiga da imprensa.

– Consegue-se perceber como está o país? Como é que as pessoas se relacionam, as famílias, os preconceitos, a violência?

R.C.M. – Começaram a aparecer coisas que, no princípio, eram ditas com muito cuidado. Por exemplo, os palavrões. Havia uma crónica até que se chamava “O valor do cabrão”: houve uma vez que tiveram de determinar quanto custava chamar ‘cabrão’ a um polícia porque tinha um valor, como é óbvio, mas a pessoa não queria dizer que tinha dito ‘cabrão’. Mas sim, assisti a uma nova geração de juízes menos paternalistas. E também senti que os pobres estão mais desprotegidos, isso é mais do que evidente, e é triste. Quando havia o filho de um tipo mais importante a meter-se nos copos e a chamar nomes a um polícia, safa-se, ou porque tem dinheiro vai conseguindo adiar, e os outros coitadinhos. E, aí, o desnível social é um bocado chocante. Alguns juízos deixavam-se levar pela condição social da pessoa, mas basicamente era o povo, era o meu povo. Encontrei pessoas muito interessantes. Mas havia uma justiça para ricos e uma justiça para pobres. Mas isto é uma coisa que qualquer pessoa já percebeu.

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