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“O meu grande contributo para a língua portuguesa foi o ‘penso eu de que’”

Carlos Picassinos

– Como é que passou a escrever para a televisão, e como foi dar às Produções Fictícias e ao Herman José?

Rui Cardoso Martins – Para dizer a verdade, foi quando decidi deixar aquele jornalismo diário que é muito cansativo. Surgiu a hipótese de voltar à televisão com os bonecos políticos. O nome foi sugerido pelo Joaquim Furtado, e eu já andava com umas ideias, a trabalhar com o Nuno Artur Silva, com o José de Pina e o João Quadros, então criámos o “Contra-Informação”, depois vieram as Produções Fictícias. Foi muito curioso porque as condições que pus eram as condições de liberdade que tinha no Público. As pessoas diziam que estava maluco porque eu, na altura, era um jornalista que andava aí, já tinha ido à Bósnia como repórter, às primeiras eleições na África do Sul, enfim, tinha algum trabalho de reportagem e, de repente, fui escrever bonecos. As pessoas diziam que estava a cometer um grande erro, que aquilo em três meses acabava. Durou 14 anos. A função daquilo era a função do bobo.

– E as pessoas estavam preparadas para esse sarcasmo? É que Portugal é um país muito puritano.

R.C.M. – Pois, não era normal fazer-se uma televisão com independência e nós no “Contra” tratávamos todos por igual, mesmo o PCP…

– Porquê o PCP?

R.C.M. – Bem, porque se dizia que éramos de esquerda e não se estava à espera que também tratássemos o PCP como os outros partidos, mas isso era ainda mais visível no futebol…

– Onde os poderes são mais obscuros…

R.C.M. – Exacto. Tínhamos o Bimbo da Costa! Aliás, o meu maior contributo para a língua portuguesa foi o ‘penso eu de que’, outro era ‘este homem não é do norte’. Porque, a certa altura, pensei: ‘Mas estamos em democracia ou não estamos’. E não nos vergávamos, como se costuma dizer. Um dia, de repente, era de bom tom ter um boneco no “Contra”. Havia gente até que nos perguntava porque é que ainda não tinha lá o boneco.

– Mas a televisão é um meio em que se sente bem?

R.C.M. – Gostei muito de fazer o “Contra-Informação”. Colaboro agora com o [programa de televisão] “Estado de Graça”, mas devo dizer que gosto de manter vários prato no ar a girar ao mesmo tempo. Também por uma questão de sobrevivência. A televisão também cada vez paga menos.

– Hoje sente que há menos liberdade para fazer humor em televisão?

R.C.M. – O que se passa é que hoje o que é exigido é que haja resultados e isso é medido pelas audiências. Antes não. O êxito de um programa media-se pelo que as pessoas dissessem na rua. Hoje pedem-se audiências e isso implica que os programas que se fazem têm de ser mais híbridos.

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