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Retratos de uma aventura marítima

Entre Goa e Lisboa, a bordo do Sagres, Magalhães de Castro tirou milhares de fotografias. Destas, 60 vão poder ser vistas em Macau, numa exposição que relata um momento excepcional: a maior tempestade pela qual o navio-escola já passou.

Inês Santinhos Gonçalves

Foram 40 dias intensos. A bordo do navio-escola Sagres, Joaquim Magalhães de Castro testemunhou o dia-a-dia da tripulação que cumpria a fase final de uma volta ao mundo pelo mar. De Goa a Lisboa, o escritor de viagens fotografou todo esse quotidiano de trabalho e lazer a bordo de um dos mais emblemáticos navios portugueses. E antes que a viagem chegasse ao fim, presenciou – com água e vento a bater-lhe na cara – a maior tempestade que o Sagres enfrentou. A adrenalina ficou registada em vídeo e fotografias, agora disponíveis ao público de Macau. A exposição “Uma aventura marítima – Viagens no Navio Escola Sagres” inaugura dia 26 deste mês e fica patente até 6 de Fevereiro.

No Clube Militar, espaço que vai acolher a mostra, vão estar cerca de 60 fotografias a cores, de ampla dimensão, referentes não só à viagem de Goa a Lisboa, realizada em 2010, mas também a uma segunda jornada durante o Verão de 2011, em que Magalhães de Castro acompanhou a viagem de treino dos cadetes, que passou por Cabo Verde, Madeira e Açores.

No final das duas viagens, o escritor deparou-se com “a tragédia do digital”: a necessidade de seleccionar algumas dezenas entre as milhares de fotografias que tinha captado. O processo de escolha, conta, tem-lhe valido dores de cabeça. Juntamente com as imagens fixas, será exibido um vídeo de cerca de oito minutos que dá vida e movimento aos 40 dias de mar que Magalhães de Castro viveu. Os registos que reuniu, nos dois suportes, são tantos que já tem planos para com eles montar um documentário – mais um na lista do viajante.

As imagens que poderão ser vistas a partir da próxima semana contam essencialmente o dia-a-dia a bordo. A excepção são as fotos que conseguiu do navio visto do mar, colocando-se num semi-rígido na água, e algumas do topo do mastro. “Mas a maioria é mesmo da actividade a bordo, da faina geral de mastros, das tarefas. Estão permanentemente a trabalhar no barco, é preciso polir os amarelos, lavar o convés com água do mar, tirar a ferrugem”, conta Magalhães de Castro. A sua objectiva reteve também partes do treino dos cadetes, “a chegada aos portos em que estão todos bonitinhos vestidos de branco, se for Verão, e de preto, se for Inverno”.

Há ainda fotos de interior, da casa das máquinas, da cozinha e especialmente dos momentos de lazer, muito marcados pelas partidas de futeconvés disputadas no navio – o jogo foi inventado por marinheiros portugueses e acabou por ser adoptado noutros países, como o México, onde agora são organizados campeonatos ao longo das viagens.

Além do desporto, outras actividades ocupam os tempos livres da tripulação, 146 homens, entre oficiais e praças: “Há sempre quem tenha cartas, uns tocam, havia um DJ de bordo, um que tocava música pimba. Jogava-se ao burro, que é uma espécie de malha, e fizeram um tipo de Jogos sem Fronteiras”. Ao entretenimento juntam-se vários jantares, alguns comemorativos dos resultados dos jogos de futeconvés.

Medo e adrenalina

O momento mais marcante da viagem, que Magalhães de Castro lamenta não ter conseguido captar de forma mais realista, foi a tempestade que o navio atravessou à saída de Alexandria. “Assustadora mas fascinante”, é assim que o documentarista a descreve. “Estamos a falar de vagas de 14 metros, rajadas de 150 km/h. Rasgaram-se seis velas, o motor avariou. Foi uma situação perigosa”, descreve. Naquele momento sentiu “medo misturado com adrenalina”: “É preciso viver uma tempestade para senti-la. É uma coisa impressionante”.

Quando a intempérie começou, o fotógrafo saiu para o exterior, até porque “é impossível estar lá dentro”. No interior do navio o caos acontecia: “A cozinha ficou de pantanas, partiu-se a loiça, foi-se a máquina de fazer pão, ficámos sem pão durante dias”. Chegou a pensar que o navio poderia afundar. “Se for, vou feliz”, pensou. Mas não foi.

À viagem não faltaram emoções. Em Gibraltar “veio mais uma tempestade daquelas fortes”, que se apresentou à hora da refeição. Sentados na cantina, os tripulantes viram os pratos deslizar pela mesa fora.

Outra fase tensa foi quando a embarcação de aproximou da zona de piratas, à entrada do Mar Vermelho. “O Sagres é um navio militar, da NATO ainda por cima, com as cruzes de Cristo, podíamos ser um alvo a abater”, lembra. Mas a travessia acabou por ser pacífica e ainda permitiu uns mergulhos nas águas calmas e infestadas de tubarões: “No dia seguinte soubemos pelas notícias que dois turistas tinham sido atacados e um comido”.

A segunda viagem, em 2011, também ficou marcada por alguns incidentes, tendo a tripulação de lidar com “problemas técnicos”. Numa noite, a bordo, Magalhães de Castro ouviu dois marinheiros comentar o assunto. Em jeito de conclusão e com sentido de humor diziam: “É o fotógrafo que nos dá azar”.

E porque não há duas sem três, está já agendada uma terceira viagem a bordo da embarcação, desta vez à vela, que terá lugar no próximo Verão.

Além da exposição, os registos fotográficos que recolheu servirão para um livro, a editar ainda este ano, assinalando o aniversário redondo do Sagres. A ideia é que “Uma aventura marítima – Viagens no Navio Escola Sagres” passe pelos pontos visitados pela embarcação na sua viagem mundial. Por agora, Hong Kong, Toronto e São Francisco são passagens garantidas.

Documentário à vista

Magalhães de Castro é um viajante nato. Já passou por mais de uma centena de países e deixou escritos de viagens, quer em livro, quer em formato de crónicas para jornais. Um mês e meio no Tibete, em 2010, resultou no documentário “Himalaias – A viagem dos jesuítas portugueses”, transmitido em quatro episódios na RTP. “Assumo o papel de viajante investigador em Macau e vou na seguida dos jesuítas”, explica.

O documentário foi bem recebido em Portugal e está prestes a passar na TDM, apesar de ainda não haver data para a transmissão. Da investigação que fez, recorda “histórias fantásticas”: “Eles eram loucos e com grande espírito de sacrifício. E persistentes, acima de tudo. Só com muita persistência se consegue fazer uma viagem daquelas. Ainda hoje é muito duro”.

Os relatos dos jesuítas no início do século XVII “são muito fidedignos”. “Esta história dava um filme de aventuras fantástico. Qual ‘Sete Anos no Tibete’, qual quê!”, exclama.

Além dos livros e documentários sobre o navio-escola Sagres, um grande projecto vai ocupar Magalhães de Castro durante este ano: um novo documentário sobre quatro personalidades de Guimarães que se destacaram no mundo. “Todos eles representam uma maneira de estar diferente dos portugueses no mundo”, adianta o documentarista. Um deles é Duarte de Sande, “uma personagem praticamente desconhecida”. O novo projecto vai levá-lo desta vez ao Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Gana, Cabo Verde, Japão, China e Macau. Porque um viajante nunca desfaz as malas.

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