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Templo dos pedintes

Fica na Rua da Figueira. De um lado, uma gigante lavandaria de centrifugação industrial – lava e enxuga as doenças e as mazelas que ficaram nas roupas de cama dos pacientes do hospital. Do outro, o templo de Pao Kong, feito sobretudo para a limpeza espiritual.

É a ele que muitos acorrem na véspera da passagem para um novo ano lunar. O encarregado chama-lhe “o primeiro dia antes do ano chinês”. Trocando o sol pela lua, acertando calendários, é no próximo domingo que o templo enche, entranha ainda mais o cheiro de incenso, e os pingos de cera escorrem perigosos entre um rodopio de ladainhas auspiciosas e de gente atamancada num pequeno corredor guardado por um exército feito de valorosas divisões de 12 budas.

Este ano, as fileiras arrancam com um ano de galo e terminam num ano de dragão. Há 60 budas alinhados, 30 para cada lado. A quem acabou de nascer, guarda-o o primeiro tai sui alinhado à direita, que tem também a cargo quem tenha feitos os 61. As divindades revezam-se na protecção de cada um dos signos do zodíaco sem que nenhuma idade fique excluída.

Cada tai sui, suas oferendas – velas, incenso e pilhas de quadrículas de papel, que elevam as divindades para que quase toquem com a cabeça no tecto, antes de uma reza apressada do funcionário, e antes de o papel seguir para queimar. Pela altura dos deuses, adivinham-se as idades que mais se oferecem aos cuidados de Ji Gong. É ele que vigia a partir do altar.

À saída, dá-se o que se quer em oferta ao templo – conquanto seja dinheiro. Ji Gong é, afinal, um pedinte, como quem pede lá dentro por saúde, prosperidade e segurança. Sobretudo, pede-se ali saúde. A segurança vai connosco no bolso. A da casa em que vivemos vai contida em caracteres e num envelope vermelho – tai soi fu –, para guardar o ano inteiro dentro de porta e devolver ao templo um ano mais tarde, sob fogo. A nossa assemelha-se a um pequeno origami amarelo, de formato triangular e caracteres vermelhos, para guardar desta vez no bolso, até o ano passar. Chama-se peng on fu e também é para queimar.

O deus vigilante, dizem, é de bom coração e aspecto duvidoso. Ji Gong – conta-se – não tomava banho e, por isso, é normalmente pintado com o rosto escuro. Tem um copo de vinho numa mão e um leque na outra, talvez do calor que emana do forno do templo. Mas aqui é um buda dourado. Terá feito vida de monge pedinte e, talvez em razão disso, há quem se deixe ficar à porta de púcara de lata velha na mão estendida, a tinir muito pouco.

Maria Caetano

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