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“Tenho uma ligação estranha a Macau”

Carlos Picassinos

– Há um próximo romance?

Rui Cardoso Martins – É também uma grande viagem, e agora vou falar mesmo à foleiro, é uma trilogia (risos). E porquê? Porque o primeiro passa-se numa pequena cidade, o segundo numa cidade maior, e este terceiro [“Se fosse fácil era para os outros”] é uma viagem num continente. Na América.

– Poderia ter sido a Ásia.

R.C.M. – Pois podia, pois podia. Agora digo uma coisa, tenho uma ligação a Macau muito estranha. Por duas vezes na vida estive quase a ir para Macau. A primeira, os meus pais foram convidados a ir dar aulas para lá. Não foram eles, foram uns vizinhos. Vou, vamos, não vamos e acabámos por não ir. De repente, um dos meus vizinhos desapareceu para o outro lado do mundo. Até nos dávamos bem, e até havia uma pequena paixoneta da minha irmã pelo filho e ele por ela, olha agora eu a falar da minha irmã, coitada! Mas, enfim, não fomos para Macau que ficou sempre assim… Depois quando fui para a faculdade fui mesmo convidado para ir para Macau, mas como estava a começar a faculdade também não fui. Mas tive de tomar uma decisão, era muito dinheiro, e percebi porque é que se falava da árvore das patacas. Por isso, por duas vezes não fui viver para Macau. Muitos, alguns foram, mas ficou-me sempre esta coisa. E já estive em Macau uma vez, nos últimos dias da transição de Hong Kong.

– Interessava-lhe a América porquê?

R.C.M. – Acho que a América ainda é aquele grande combate cowboys índios, os genocídios, a grandeza, o dinheiro.

– O Jean Braudillard referia-se aos americanos como os últimos primitivos.

R.C.M. – Pois, pois… Fiz uma grande viagem na América na altura em que andava um bocado em baixo e, já era jornalista, mas fiz uma viagem turística fantástica que me levou de Nova Iorque a São Francisco pelo sul, e de São Francisco a Nova Iorque pelo norte. Foi uma viagem espantosa que me limpou a cabeça e aqui está aquilo que dizia, de como as coisas que estão cá dentro nos regressam. Não tirei uma única nota, fiz exactamente o contrário do que seria aconselhável, e agora ainda bem que não escrevi nada porque estou a reinventar tudo. Há coisas que ficam ali numa espécie de depósito sentimental e de ideias que são usadas muito mais tarde. Noutro dia estive a ouvir uma entrevista do Salman Rushdie sobre isto, sobre a maneira como os escritores guardam coisas.

– No jornalismo, isso não acontece? Há também um imaginário que contamina.

R.C.M. – Na minha opinião, o jornalismo é também uma interpretação do mundo. E aquilo que acontece é, às vezes, mais interessante do que não acontece. E, doutras vezes, a maneira como se conta é aquilo que permite ver aquilo que aconteceu. Mas a vida também é feita dessas camadas. Esta coisa das camadas é para mim também muito importante. As camadas psicológicas e físicas… aliás, este livro sobre Lisboa é sobre isso, essas camadas.

– Como “As Cidades Invisíveis” do [Italo] Calvino.

R.C.M. – Exactamente. O Calvino tem uma coisa de que gosto muito que é a ideia de leveza…

– Nas [Seis] Propostas para o Milénio.

R.C.M. – Sim, a ideia de literatura como leveza. Nem toda a gente leva isto muito a sério. Eu levo, mas acho que a leveza é sempre uma falsa leveza. Quando a leveza é mesmo leve, ataca-nos de forma pesada.

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