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É tudo mais ou menos igual

Isabel Castro

 

Joni tem 18 anos e não sabe quem é o pai. Prestes a ir para a faculdade e a deixar a casa (duplamente) materna, vive bem com o facto. Laser tem 15 anos e também não sabe quem é o pai. Mas não vive bem com a ausência de uma figura paterna. Pede a Joni, mais velha e com idade para o fazer, que contacte o banco a que recorreram as mães de ambos (cada um tem uma, mas chamam “mães” às duas) e que desfaça o mistério. Joni faz a vontade ao irmão puto e é assim que uma família invulgar se torna ainda mais peculiar. Ou talvez não.

“The Kids are All Right”, filme nomeado para quatro Óscares e vencedor de vários prémios em festivais da especialidade, tem como centro da acção um casal de mulheres, homossexuais, e os seus dois filhos: Joni (Mia Wasikowska) é uma miúda inteligente e sensível, Laser (Josh Hutcherson) também, cresceram direitinhos e bem-educados por Nic e Jules, as respectivas mães (e mães de ambos).

Nic (Annette Bening) e Jules (Julianne Moore), por seu turno, são o casal que responde aos padrões da normalidade, dos casamentos com muitos anos, gastos aqui e ali pelo quotidiano, pela competição intra-marital, pelos pequenos problemas que os filhos causam. Nic é médica, bem-sucedida e o pilar da família, a mulher de força; Jules deixou de estudar para tomar conta das crianças, não terminou Arquitectura, está prestes a iniciar um novo negócio e é, acreditamos, mais frágil. Dentro da invulgaridade que é este núcleo familiar, Lisa Cholodenko (que é também co-autora do guião) não poderia ter recorrido a mais lugares-comuns para fazer desta relação um cliché.

A entrada em cena de Paul (Mark Ruffalo) – o dador de esperma que 19 anos antes foi a um banco e nunca mais pensou no assunto até Joni lhe telefonar –, vem alterar os dias calmos que se vivem na casa de Nic e Jules.

Paul é o pai porreiro: solteiro, sem uma relação amorosa sólida, tem uma quinta onde produz alimentos biológicos e um restaurante cheio de charme. Anda de moto e de capacete, é divertido, acolhe a ideia de ter dois filhos adolescentes com um imenso encanto e muita ternura. Não tem preocupações moralistas, gosta dos miúdos que, afinal, também têm traços dele – com Joni há um entendimento imediato; com o tímido Laser vai criando uma relação.

Não procurando uma aproximação ao quarteto central da história, Paul é chamado a participar no quotidiano da família por Nic e Jules, que preferem estar presentes a não saberem quem é este pai dos seus filhos, que os filhos encontraram e com o qual estabeleceram contacto. Nic entra em rota de colisão com Paul; já Jules encontra em Paul o que Nic aparentemente não lhe dá. É aqui que os problemas começam – é aqui que paramos na nossa história.

Feito com muito sentido de humor, dono de uma excelente banda sonora, “The Kids are All Right” é um filme impensável há uns anos (as inseminações artificiais e as relações homossexuais não eram transportadas para o cinema com tamanha facilidade), feito com muita simplicidade. Não se encontra na obra de Cholodenko necessidade de entrar pelo campo das lições de moral, mas também não se detecta vontade de recorrer a elementos que choquem, que perturbem. É um filme normal, com sentido de humor, cadente, ritmado, com bons actores que jogam bem entre o drama e a comédia.

Com o nome roubado a uma música dos The Who, de 1965, “The Kids are All Right” não deixa de ser, no entanto, um convite a uma reflexão sobre o que somos, para nós e para os outros: independentemente das escolhas de vida, das opções sexuais, do modo como nos escondemos ou enfrentamos a realidade, a verdade é que somos todos demasiado parecidos nestas coisas de irmos sentindo. E de irmos vivendo.

 

“The Kids are All Right”

Lisa Cholodenko, 2010

 

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