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O novo mundo dos Turtle Giant

Depois de uma digressão em Espanha, a trote do primeiro álbum da banda, “Feel to Believe”, os Turtle Giant regressaram a Macau com ideias na cabeça. Em primeiro lugar, não queriam repetir a fórmula de trabalho do primeiro disco, gravado em São Paulo, em 2009. Depois, Frederico e Beto Ritchie decidiram que era tempo de abrir as portas do projecto familiar a um terceiro elemento. O escolhido foi António Conceição, mais conhecido por ser o moço por detrás do projecto O Monstro.

Partiram, então, para a aventura de criar uma nova sonoridade mais trabalhada para o formato concerto. Resultado: música encorpada que, no entanto, não descura o pormenor. Aliás, é disto mesmo que vivem as quatro novas canções que o PARÁGRAFO teve oportunidade de ouvir.

Com uma pontinha de psicadelismo e melodias espaciais – todos os membros andam com os Tame Impala nos ouvidos –, a música dos Turtle Giant, neste ano de 2012, bem pode ser presença assídua nos mp3 de muita gente. A ver vamos.

Até ao lançamento do novo disco, programado para Março, o trio vai desdobrar-se em concertos. O primeiro é já amanhã, no bar Roadhouse, a partir das 22h.

Depois, no próximo dia 3, será o palco do Fórum Macau a receber nova apresentação ao vivo do grupo, integrada no I Festival Literário de Macau – Rota das Letras.

O concerto promete oferecer temas antigos, como “Sunlight” e “Taking the Heat”, e material produzido recentemente pela banda.

– Quem não conhecer os Turtle Giant fica impressionado com a descrição da banda no programa do I Festival Literário de Macau. Lê-se que são “o colectivo local mais reconhecido internacionalmente”. Revêem-se nesta apreciação?

Beto Ritchie – Não. Mas o que eu posso dizer é que, em Macau, nós somos a única banda… Bom, músicas como o Beat Through, Sunlight e All for the Taking estão em séries que passam no mundo inteiro, como a One Tree Hill, Ghost Whisperer, 90210. O One Tree Hill foi mesmo a série de televisão que mais nos ajudou a dar a conhecer a nossa música lá fora. Deve ser só por aí. Nos Estados Unidos ou na Europa ninguém conhece os Turtle Giant como banda.

– Mesmo assim, já fizeram uma tour em Espanha com o “Feel to Believe”. O segundo álbum tem muito do primeiro ou é, de alguma forma, diferente?

Frederico Ritchie – Acho que o novo disco vai ser muito diferente. O primeiro foi gravado no Brasil e não ficámos nada felizes com o resultado. Não fizemos pré-gravação, gravámos num estúdio de metal dos Sepultura. Mas agora vamos mudar e vamos tocar as nossas músicas como gostamos. Antes, já tínhamos pensado em opções e, em Espanha, fomos mesmo para um estúdio, mas foi usada a mesma fórmula. E outra vez num estúdio de metal. Parece que isto nos persegue. Acho que temos de ter uma banda assim.

– Esta mudança surge por alguma razão especial?

B.R. – Encontrámos dificuldades em reproduzir o disco que gravámos ao vivo. Tínhamos um set acústico e outro eléctrico porque não nos sentíamos confortáveis ao apresentar as músicas ao vivo. Como agora estamos a trabalhar primeiro na parte ao vivo, acho que será mais fácil.

– Para o novo álbum contam ter quantas músicas?

F.R. – Entre 8 a 10.

– Contam ter o novo álbum pronto quando? E já há editora interessada?

F.R. – Em Março. Não há editora porque vamos fazer tudo.

António Conceição – O que nos dá uma liberdade imensa. Na verdade, nós não somos os típicos músicos que só tocam. Não me refiro a uma actividade profissional. Dentro da vida musical, somos gráficos, designers. Fazemos tudo. Vamos ser nós a gravar, não vamos entregar o nosso projecto a nenhum produtor ou a um estúdio. Vamos ser nós com as nossas coisas. Os videoclipes vão ser nossos, os posters e as capas dos discos também.

B.R. – As roupas são nossas. (risos) Agora a sério, eu já trabalhei num grande estúdio, em Santa Bárbara. Sei todo o processo de gravação e muitas coisas hoje ficaram simplificadas com a tecnologia. O processo é relativamente simples. O importante é ter magia e um produto bom.

– Há algum local onde gostavam de gravar?

F.R. – No teatro D. Pedro V.

B.R. – Nós iriamos para lá, durante uma semana, e gravávamos tudo de uma vez. Se não acontecer, tudo bem. Mas normalmente é o que acontece.

– Essa ideia de gravar no Teatro D. Pedro V vem ao encontro da conhecida dificuldade que existe em gravar música em espaços de Macau?

B.R. – Há poucos espaços e esta é a única escolha que temos no momento.

A.C. – O nosso desejo é esse por causa das condições acústicas. E porque nós somos de Macau e o teatro é um símbolo de Macau muito forte. Representa gerações e gerações de espectáculos feitos aqui. Além de dignificar o nosso projecto, é uma forma de dignificar Macau com aquilo que podemos fazer e criar.

– O pedido já foi feito?

B.R. – Sim. O objectivo é começar a gravar a partir de 4 de Fevereiro. Estamos à espera de confirmação.

– Estamos a falar de um trabalho de 2012, ainda em preparação, por isso vamos pegar um pouco na vossa história. Como é que surgiu este projecto na forma de duo?

F.R. – Nós tocávamos desde pequenos , mas eu tinha a minha banda e o meu irmão tinha a dele, em Macau. Mudámo-nos para os Estados Unidos e também tocámos lá. Mais a sério, aconteceu no Brasil quando decidimos gravar um disco. O nome apareceu e ficou Turtle Giant, não sei porquê. Não me lembro. Inventámos algumas coisas, mas não me lembro como surgiu o nome.

B.R. – Estava em Lisboa, quando me mandaste o nome.

FR – Não sei mesmo como surgiu.

– Quando é que foram para os Estados Unidos?

B.R. – Nós vivemos em Miami de 1987 a 1993 [antes, moravam em São Paulo]. Depois viemos para Macau e após o liceu voltámos para os Estados Unidos e ficámos dez anos na Califórnia. Por um tempo, ele foi para Nova Iorque e eu para São Francisco.

– Nunca estiveram sempre juntos.

B.R. – Não, não. Tanto que ele voltou primeiro ao Brasil, em 2005, e eu só voltei a São Paulo, em 2006. Aí não vivíamos desde putos.

– Musicalmente, sob o nome Turtle Giant, juntam-se em 2009. No entanto, já tinham tido bandas?

B.R. – Quando saímos de Macau, em 1997, para Santa Bárbara, tínhamos uma banda lá, com dois americanos. Durou uns dois ou três anos.

F.R. – Tocámos uns shows e gravámos um disco, mas não deu certo. O cantor era um ditador. E eu briguei com o gajo. (risos)

– Por falar em brigas, são conhecidas as desavenças entre irmãos que têm bandas.

B.R. – Oasis!

António Conceição – Eles são os Oasis de Macau. (risos)

– E também há o exemplo dos Kinks. Volta e meia…

B.R. – Os Kinks brigavam.

F.R. – A gente briga bué!

A.C. – Eu não brigo com eles. Não sou irmão de nenhum.

– António, como é que tu entras aqui à baila, no meio dos dois irmãos?

A.C. – É uma coisa recente. Nós conhecemo-nos há dois, três anos. Já tinha tocado com o Fred e com o Beto tive uma banda, os The Shin Shins. Entretanto, o João [terceiro membro dessa banda] foi-se embora e o Beto também, por causa dos Turtle Giant. Depois de voltarem da digressão, convidaram-me e agora estamos a tocar juntos.

– Já deu para perceber que o processo de composição e trabalho alterou-se com a chegada do António.

B.R. – Altera muito. Ele traz muitas ideias e dá força à composição.

A.C. – O quê?

– O Beto estava a dizer que dás muita força à composição. Talvez sejas uma espécie de criativo, um número dez de uma equipa de futebol, que recebe a bola e distribui jogo. Será que és o Messi aqui do sítio?

A.C. – Eu sou mais finalizador. Sou ponta-de-lança. Chego lá e digo “não, isto ao contrário fica melhor”. (risos) Não, todos fazemos isto. No primeiro dia em que fomos tocar, tínhamos basicamente um álbum feito. Numa noite, ao brincarmos e ao trazermos ideias, conseguimos moldar um conjunto de músicas que, para nós, davam pica tocar e que, para mim, têm alguma qualidade. Portanto, nenhum de nós chega e diz “eu venho salvar a banda”. Esta banda não tem salvação. Esta banda não precisa de salvação. (risos)

B.R. – Ninguém chega e diz “tenho aqui estas músicas, vamos lá tocá-las”. Toda a gente tem ideias.

A.C. – Nós fazemos tudo juntos.

F.R. – Pelo menos no começo.

– Cada um traz a sua ideia e as coisas vão crescendo?

A.C. – Eles já traziam algumas ideias e músicas feitas de Girona [durante a digressão espanhola o ainda duo fixou-se nesta cidade catalã] porque andam a compor o segundo álbum há bastante tempo. E agora temos mais.

F.R. – Eu tenho sempre músicas. Sempre, sempre. Mas dez ou 15 minutos depois de começá-las aborreço-me.

– A constante insatisfação é algo inerente ao processo criativo?

A.C. – É preciso uma dose de criatividade muito grande. Eu li uma entrevista com o Manuel Cruz [Ornatos Violeta, Pluto, Supernada, Foge Foge Bandido] há uns tempos. Ele tem uma particularidade que é odiar tudo aquilo que já fez porque é um passado que resulta de um contexto e de uma época. Mas o que interessa é fazer mais. Compor. Ultrapassar aquilo que já está feito. E é de certeza isso que o Fred faz.

F.R. – Se eu estou sozinho é muito difícil continuar. Tem de haver outra pessoa que me dê uma ideia. É muito bom quando há outras pessoas para trabalhar em alguma coisa.

– Portanto, esta mudança de dois para três membros ajuda muito.

F.R. – Ajuda muito. Somos irmãos e, desde pequenos, estamos juntos. Em casa, quando trabalhamos uma música é estranho. Além disso, ele é baterista, além de cantor e guitarrista. Mas é principalmente baterista. E isso para criar músicas é mais complicado. Já há muito tempo que queríamos uma pessoa para trazer as suas coisas, as suas experiências e o seu talento. Sempre foi muito difícil arranjar alguém. Tocámos com várias músicos, mas a maioria das vezes não dava certo.

B.R. – Nos Estados Unidos, na Catalunha, no Brasil. Em todos os lados.

F.R. – O António já tem a sua personalidade. Quando tocávamos com outras pessoas, às vezes, tínhamos de dizer “é assim e assim”. Com ele não é necessário.

A.C. – Ninguém tem de dizer “ok, agora é um dó sustenido porque, não sei se percebes, é influência daquela banda”.

– Por agora, estão em Macau. Além de base, o território funciona também de plataforma?

B.R. – Se a gente conseguir ter um projecto aqui e ter sucesso à volta, em Taiwan, Hong Kong, Singapura, na China e no Japão, Europa e Estados Unidos…

A.C. – Macau ainda não é uma plataforma porque não promove nenhum intercâmbio, nem promove nenhuma indústria musical. Porque também não tem capacidade. Macau não tem mercado, não tem números para mercado. O que pode ser é uma base criativa. Um espaço onde a criação seja fomentada, onde a criação seja promovida e possa ser exportada. Seja qual for o produto cultural. O grande trunfo de Macau é que se fala português, inglês e chinês fluentemente. Devia ser a aposta para a indústria musical. P.G.

 

“Se alguém está a piratear a nossa música é um bom sinal”

– A Internet é uma excelente plataforma para partilhar o vosso trabalho?

AC – É, mas em Macau ela não é grande ajuda. É muito lenta. (risos)

– Como é que vocês vêem o encerramento do Megaupload que era muito utilizado na partilha de ficheiros de música de novas bandas?

BR – Por um lado, se alguém está a piratear a nossa música é um bom sinal. Significa que há um interesse. Ficaria honrado se achasse um “torrent” dos Turtle Giant. Já é um bom começo.

– Portanto, não vêem com maus olhos a pirataria?

BR – A responsabilidade do músico é também a de criar valor. Se querem vender discos têm de criar algo mais ou então confiar muito na sua base de fãs.

AC – Um músico tem formas de se proteger sem que seja necessário fechar sites de Internet. Essas defesas é que não são promovidas. Há formas.

BR – Há implicações muito piores. O nosso ensaio de ontem foi colocado no Dropbox. E já está lá. Se amanhã o FBI decide que o Dropbox tem muita pirataria e decide fechá-lo, perdemos também os nossos ensaios. No Megaupload perdeu-se muita coisa que não era pirateada.

– A indústria musical deve ser repensada?

AC – Na verdade, é muito ditatorial restringirmos o acesso a conteúdos através de dinheiro. Mas, ao mesmo tempo, é necessário preservar toda a integridade do artista e manter o seu conforto económico para continuar a trabalhar e a produzir. A indústria deve ser repensada no seu todo.

 

O que toca no mp3 dos Turtle Giant

Frederico Ritchie

MGMT, Pink Floyd, dos tempos de Syd Barret, Arcade Fire e Tame Impala.

 

Beto Ritchie

The Kills e Tame Impala.

 

António Conceição

Arcade Fire, Portugal, the Man, Tame Impala e Black Keys.

 

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