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Do direito à morte

Isabel Castro

 

A teoria tem tanto de simples como de polémica: os indivíduos devem ter direito a atalhar o sofrimento. Aos homens e às mulheres – não necessariamente em estado terminal – que se sentem aprisionados nos seus corpos deve-lhes ser dada a possibilidade de apressarem o fim. E aqueles que não conseguirem carregar no botão ou puxar o fio devem ter ajuda especializada para poderem cumprir o seu desígnio.

Jack Kevorkian pensava assim, agiu de acordo com as suas convicções e é ainda hoje visto por muitos como um homicida. Cumpriu pena nos Estados Unidos por homicídio. Morreu no ano passado, com lugar na categoria dos loucos, dos lunáticos, dos incompreendidos. Dos diferentes, sem dúvida alguma – Kevorkian, Dr. Death para os (poucos) amigos e para os detractores, era um homem invulgar.

Nascido no Michigan em 1928, filho de pais arménios, Kevorkian formou-se em Medicina, especializou-se em patologia, tendo tornado públicas as suas teorias acerca da eutanásia nos anos 1980. Na década seguinte, pô-las em prática – criou um dispositivo ao qual chamou “Thanatron”, que ficaria conhecido como máquina da morte, e mais tarde o “Mercitron”, em que as drogas letais foram substituídas por gás, por ter ficado impedido de aceder a fármacos quando lhe suspenderam a licença para exercício da profissão.

Entre 1990 e 1998, ajudou 130 pessoas a morrer. Não cobrou dinheiro a nenhuma delas – homem de hábitos espartanos, vivia praticamente na miséria. Foi julgado três vezes: a ausência de legislação sobre a matéria e o facto de terem sido os doentes a accionarem os engenhos fizeram com que as mortes fossem, do ponto de vista jurídico, entendidas como suicídios.

Ao 130º pedido de auxílio, Kevorkian deparou-se com um homem incapaz de pôr fim à vida sem apoio – e o médico não recusou a ajuda. Não obstante as imagens em que o doente pedia expressamente que o ajudassem a morrer, Dr. Death foi condenado por homicídio. Saiu da prisão com quase 80 anos e as mesmas convicções: nascemos livres e as leis que determinam que não somos livres para morrer nascem de imposições de ordem moral e religiosa. Kevorkian refutava a mitologia. Tinha um Deus? Talvez Johann Sebastian Bach.

Barry Levinson recupera para o cinema a estranha figura de Jack Kevorkian para um filme que, rodado em 2010, ainda foi visto pelo homem que lhe deu origem. Levinson não endeusa mas também não diaboliza o homem que defendia que a morte devia ser tratada de modo tão natural como a vida – mostra-nos, isso sim, um homem solitário, com uma profunda estrutura filosófica, de ideias fixas, com uma obsessão por um direito que a conservadora América não quis com ele debater.

Em “You don’t know Jack”, Kervorkian é Al Pacino. E estará tudo dito sobre o filme, ao qual são apontados problemas de raccord que, sejamos sinceros, pouco interessam para o resultado final. Al Pacino é de tal modo convincente no seu papel que mereceu elogios do próprio Kervokian – morreria não muito tempo depois de o filme chegar às salas de cinema. Ainda citava Schopenhauer e dizem que teve uma morte rápida e indolor. Não sabemos se ainda ouvia Bach.

 

You don’t know Jack

Barry Levinson, 2010

 

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