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O Havai é aqui

Qualquer filme que consiga fazer George Clooney parecer um falhado merece, desde logo, atenção. Se o mesmo Clooney usar camisas havaianas e chinelos e estiver sob a direcção de Alexander Payne – realizador que o New York Times inteligentemente definiu como tendo feito carreira a retratar revoltados homens de meia-idade –, então temos Óscar na certa.

Os filmes políticos, as causas humanitárias e o trabalho por detrás da câmara têm marcado a actividade mais recente do actor, mas em “The Descendants” Clooney não faz nada disso. Aqui é um homem a braços com uma tragédia familiar, ainda que com um cenário paradisíaco como pano de fundo, e um conjunto de difíceis decisões morais para resolver.

Numa cena de abertura, Matt King (personagem principal interpretada por Clooney), sentado à beira de uma cama de hospital, fala dessa ideia cliché que os seus amigos do Continente têm do que é a vida no Havai. Um paraíso onde todos fazem surf e aproveitam o sol, onde se é, automaticamente, feliz. “Será que eles acham que somos imunes à vida? Como podem pensar que as nossas famílias são menos perturbadas? Que os nossos desgostos são menos dolorosos. Paraíso? O paraíso pode ir lixar-se.”

Matt tem duas filhas e muito dinheiro que não usa. A sua família detém um gigantesco pedaço de paraíso na ilha de Kauai, um terreno virgem que está na posse do clã há mais de um século. Os King são uma das famílias mais antigas do arquipélago, com origem na mistura entre os primeiros colonizadores e a realeza indígena. A venda do terreno fará todos os primos – um conjunto de galhofeiros aristocratas de calções e havaianas – extremamente ricos.

Esta difícil decisão deve ser assumida não só perante a família, como perante os habitantes das ilhas e, talvez ainda mais determinante, perante todos os vários retratos a preto e branco dos antepassados que lhe ocupam as paredes de casa.

Mas o drama não reside aqui. O drama é Elizabeth. Dela sabemos que era bonita, ousada, conflituosa. Mas o que vemos é apenas uma sombra. Uma mulher pálida, entubada, de cabelo ralo. É assim que nos surge ao primeiro minuto, e é assim que vai permanecer até ao fim. No entanto, é ela a força motriz de todo o filme.

Matt, “o pai de reserva”, como ele mesmo se intitula, dá por si com duas filhas, uma de dez, outra de 17, duas rebeldes desajustadas com demasiada pimenta na língua. A família vê-se obrigada a lidar não só com a dura realidade de uma mãe e mulher em coma, mas com os erros por ela cometidos, que lhes cabe agora, a eles, corrigir.

É desarmante e comovedora a interpretação de Clooney como um homem em permanente desnorteio, traído, frágil, inseguro, arrependido, revoltado, assustado. É tal que nos faz ter a certeza: para ser feliz não basta um céu azul, um mar brilhante e um sol meigo. Isso tudo é cenário que fica bem na fotografia, mas do que realmente precisamos, na tela e na vida, é de um argumento que garanta um sorriso ao cair das cortinas.

The Descendants

Alexander Payne, 2011

 

Inês Santinhos Gonçalves

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