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A vida quase perfeita

Étienne Meunier é o homem quase-perfeito. Executivo de topo, está prestes a ser o número um da empresa onde trabalha e vive os dias anteriores à sua consagração com um misto de felicidade e culpa no cartório. Engenheiro de formação, enveredou por uma carreira fora dos laboratórios, conduz longos veículos pretos, veste fatos elegantes, é um homem bonito (dentro de certos cânones). É o retrato do jovem bem-sucedido, casado com uma mulher aparentemente perfeita, doce, cândida, suave, bonita (dentro de certos cânones). Meunier é Benoît Magimel e, não há qualquer dúvida, Magimel é um grande actor, sobretudo em filmes low-cost com narrativas densas.

“Sans laisser de traces” não se faz de uma narrativa densa – antes pelo contrário. A história é simples e, de algum modo, um déjà-vu cinematográfico: Étienne Meunier só não é perfeito porque (cliché) no melhor pano cai a nódoa e a dele é grande. Construiu a carreira com base numa enorme mentira – e não fosse esta mentira, Meunier jamais teria chegado onde chegou.

A distorção da verdade causa-lhe problemas de consciência – e aí temos o homem bem formado que cometeu um erro, ao se apoderar daquilo que não lhe pertencia para comprar longos veículos pretos, fatos elegantes e uma casa como as das revistas de decoração de interiores. Talvez a mulher tenha vindo no pacote, mas não se sabe.

O passado imperfeito de Meunier conhece-se poucos minutos depois do trabalho de Grégoire Vigneron ter início. O nosso protagonista encontra um amigo de infância, um antigo colega de escola, e decide fazer dele seu confessor. Patrick Chambon (François-Xavier Demaison) é um homem com um passado bem diferente do seu antigo compincha, tem o currículo manchado por uma vida que anda longe dos longos automóveis pretos e das mulheres dóceis em casa. Perceberemos mais tarde que não é o padre ideal: Chambom sabe guardar um segredo mas é uma espécie de Midas ao contrário. Tudo aquilo em que toca transforma-se num problema maior do que o original.

O que começou por ser uma grande mentira na vida de Meunier, um peso na consciência e um crime de gravidade moderada assume estatuto de delito maior. Quanto mais tenta ajudar o amigo, mais Chambom se enterra, levando com ele Meunier. E o carácter do executivo é posto à prova: quase-perfeito ou mais-que-imperfeito? Salvar a pele ou recusar à ascensão profissional e à asséptica vidinha conjugal?

Partindo de uma história simples, sem grande ciência nem arte, Grégoire Vigneron consegue manter o interesse. E fá-lo através da construção das personagens, que não assumem explicitamente quem são. Meunier é casado com a filha do patrão: matrimónio de conveniência ou relação sentida? Meunier não se afasta do que lhe pode ser perigoso: necessidade de apaziguar a consciência ou interesse genuíno em minimizar os estragos que fez? É através dos equívocos que provoca que Vigneron transforma uma história banal num filme que vale a pena ver, mais não seja para nos lembramos que a vida é sempre e apenas quase perfeita.

Isabel Castro

Sans laisser de traces

Grégoire Vigneron, 2009

 

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